quarta-feira, 3 de julho de 2013

Clássicos literários levam à reflexão e ao aprimoramento pessoal

Quem nunca se pegou pensando sobre a vida, seus relacionamentos ou o mundo ao redor depois de terminar um bom livro? Além de ser um prazer, a literatura também traz subsídios para profundas reflexões. Em tempos modernos, os livros de autoajuda surgiram para orientar as pessoas objetivamente a lidar com os próprios problemas. No entanto, a leitura de clássicos literários pode levar a uma experiência muito mais produtiva de desenvolvimento pessoal. 
"Os livros de autoajuda são criticados porque se fecham em um único sentido. Já a literatura abre para a interpretação de cada um. Cada leitor vai tirar as suas próprias conclusões acerca de uma obra, de acordo com as experiências pessoais e o repertório cultural", defende Filomena Elaine Paiva Assolini, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em Ribeirão Preto.
 
Na literatura clássica, em muitos casos, a mensagem não chega ao leitor de maneira tão explícita e requer certo esforço de interpretação. "Nestas obras, a mensagem pode ser dada pelo avesso, ou seja, mostram o que não se deve fazer a partir do desenvolvimento de um personagem que agiu de determinada maneira e se deu mal", explica Roberto Juliano, professor de literatura do Cursinho da Poli. "É justamente por conta dessas características, dessa complexidade, que os clássicos nos instigam a pensar", completa. 
 
Com a ajuda de especialistas em literatura, montamos a lista de livros clássicos que ilustram essa matéria e valem a pena pela narrativa, mas também pela reflexão que propõem.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O colapso de uma moral

Prof. Alonso Bezerra de Carvalho*

Desde há algum tempo temos constatado, via reflexões, discussões e atitudes, que estamos com muitas dificuldades em encontrar princípios que durem. Valores universais que moviam as nações, os povos e as pessoas se ausentaram da vida pública e nos resta apelar para as vontades e os desejos mais individualistas ou egoístas. Nós, os humanos, temos que enfrentar a cada dia a vida intramundana tal como ela é, pois para o além dela não se vislumbra nada de seguro e permanente.
Pode parecer novidade, mas essa constatação não é nada nova. Na história do pensamento humano vários pensadores já se debruçaram sobre a questão, tentando explicar ou compreender o que se passa. O filósofo alemão Nietzsche (1844-1900), no século XIX, dedicou grande parte de seus escritos a refletir sobre a falência dos ideais que prometiam uma vida feliz a todos os homens, tanto nessa vida como numa outra que teríamos, no futuro, depois da nossa morte.
Nietzsche vai dizer que os valores supremos de desvalorizaram. Isso não significa que o homem perde seu leme e o rumo para onde precisa ainda percorrer. Não se trata de mera negação. Antes disso, o que ocorreu foi apenas um esvaziamento de sentido, simplesmente a vida e seus significados já não dizem mais as mesmas coisas que dizem antes. Aquele otimismo exagerado nas ciências, na religião, na educação, na política, etc., parece ter desaparecido e agora nos resta enfrentar o vazio do mundo e de nós mesmos.
No campo da moral, sobretudo, é bem visível, segundo Nietzsche, a falta de sentido e a derrocada dos valores morais. Viveríamos num estado psicológico em que fica difícil acreditar que tudo tem um fim, um fundamento e uma verdade e que a vida eo mundo ainda possuem valor. Vivenciamos um processo de esgotamento generalizado de novas possibilidades com a vida, ou ainda, a falência da potencialidade humana em criar novas estimativas de valor.
Nietzsche propõe a ideia filosófica de que “Deus está morto”, querendo dizer com isso que os valores transcendentais e mais sublimes foram apagados de nosso horizonte. Apagar o horizonte é tirar a meta ou a direção do homem, ou seja, que a cultura já não tem um projeto para a formação do homem e nem rumo para onde nos movimentarmos. “Deus está morto” significa que todas as esferas da cultura – a política, a religião, a arte, a educação e a moral, por exemplo -, perderam sua base de sustentação.
A crise ética resultante desse processo é notória. Se nos resta alguma esperança disso tudo, diria que cabe a nós pelo menos reconhecer e fazer um bom diagnóstico da situação. A moral que adotamos até agora teria sido uma “moral de rebanho”, cuja característica principal é o controle quase total de nossas potencialidades com a promessa de uma vida ótima depois da morte. E com isso deixaríamos de manifestar os nossos desejos de maneira plena. A repressão, a culpa, o castigo, etc., eram os meios adotados para nos fazer acreditar nesse outro mundo.
Talvez não concordemos com o filósofo, mas que estamos diante uma boa interpretação para os nossos tempos, isso estamos! Pensemos numa outra moral!

*Alonso Bezerra de Carvalho é professor da Unesp.

E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br

terça-feira, 7 de maio de 2013

Em vez de se fazer política, políticos - pelo menos, uma parcela deles - fazem apenas "negócios"


João Sayad: Taxonomia dos ratos
Face a problemas insuperáveis, a ciência classifica.
Médicos classificam tumores em benignos, malignos, perversos ou dóceis. Zoólogos falam de baratas pretas, marrons, voadoras, cascudas ou molengas; ratos de rabo longo, camundongos, ratazanas, roedores urbanos e rurais. O método se chama taxonomia.
Se é impossível resolver, extinguir ou explicar, classificamos. O taxonomista é, antes de tudo, um resignado.
Convido o leitor a iniciar uma taxonomia da corrupção.
Existe a corrupção do fiscal, do policial, do oficial de justiça, do perito avaliador, do inspetor da prefeitura, do parlamentar. Esta é a malversação do tipo público. E a corrupção do setor privado, obviamente, faz par a cada uma das classes de corrupção do setor público.
Mas gêneros, espécies e subespécies ainda não foram bem definidos.
Contribuo, então, com uma classificação que, mesmo modesta, pode aumentar a produtividade dos caçadores de ratos, fabricantes de inseticidas e ratoeiras, auditores, corregedores, promotores, funcionários do Ministério Público, jornalistas e até gente do terceiro setor que ainda se incomode com o tema.
Dividiria a corrupção do setor público em dois grandes grupos.
A grande corrupção (chamemos de corrupção "a la grande") está associada a investimentos públicos enormes. É o mundo das negociatas impressionantes, das concessões viciadas, das toneladas de cimento.
O caso famoso do prédio do Tribunal Regional do Trabalho, na Barra Funda, em São Paulo, é bom exemplo. O prédio está lá. É grande, espaçoso e funcional. Pode-se dizer até que é bonito. Custou 160 milhões de reais a mais do que deveria ter custado. Mas está lá.
O culpado pelo desvio foi morar em Miami, comprou um monte de carros esporte e voltou preso. Quem ficou aqui acabou devolvendo em prestações o superfaturamento praticado. A relação custo-benefício, no final das contas, foi positiva: houve custo excessivo, mas o prédio, repita-se, ficou pronto.
As características desse tipo de corrupção são duas: primeiro, o bem público foi produzido e entregue. Depois, o valor subtraído ficou conhecido e teve limite. Acabou a obra, acabou o roubo. E os culpados mudam de ramo e nos deixam em paz, se não forem presos.
Existe também a corrupção pequena (de custeio, diriam os economistas): contrata parentes, compra papel higiênico superfaturado, orienta a criação de empresas de fachada para prestarem serviços, cria cooperativas para pagar funcionários terceirizados, faz acordo de "kick back" com os fornecedores e, principalmente, avacalha, paralisa, lasseia e termina por matar a organização que administra.
Esse tipo de corrupto "petit cash" instala-se em organizações públicas menores, nas quais pode atender a fisiologia e necessidades de financiamento eleitoral sem ser percebido de imediato. funcionários de carreira; o segredo e a confidencialidade passam a ser as regras na organização.
E os serviços públicos que seriam oferecidos vão perdendo qualidade, tornam-se irrelevantes. Os funcionários acabam deprimidos, pois não têm o que fazer, ganham mal e sabem que o "andar de cima" ganha bem por dentro e por fora. O resultado é o apodrecimento da organização até a morte definitiva.
O custo desse tipo de corrupção parece pequeno. Mas um desvio de 1 milhão por ano por tempo indefinido tem um valor atual elevado. Se a taxa de juros de desconto for de 7,5% ao ano, 1 milhão por ano custa ao contribuinte mais de 10 milhões.
Sangra a organização anos a fio, faz favores a seus superiores e enche-se de queijo de maneira paulatina e continuada. A alta administração do órgão se afasta e se esconde dos Pior ainda, a relação custo-benefício é infinita: custa 10 milhões e não oferece nenhum benefício público. Não há adição, só subtração. É dez dividido por zero.
Não há um prédio, não há nada concreto no fim da linha, só há ruínas e desmoralização. E a sociedade fica sem o serviço público direito, enquanto centenas de funcionários passam anos em meio ao lixo.
Finalmente, esse tipo de corrupção tem um agravante.
Como é obtido em suaves prestações, não permite ao parasita fugir para outro país, ir morar na praia ou dedicar-se à criação de cavalos. O parasita permanece grudado na instituição hospedeira da qual suga o sustento por longos períodos, até que mudem os partidos no governo.
É uma corrupção mixa, que não produz fóruns, estradas ou pontes.
Proponho, a quem tiver paciência de continuar o trabalho de classificação, chamá-la de "corrupção brega". Minha vontade de prosseguir na tarefa acabou. Estou indignado.
JOÃO SAYAD, 67, doutor em economia pela Universidade Yale (EUA), é presidente da Fundação Padre Anchieta

A morte não é nada para nós


Quando o nosso corpo fica doente uma das primeiras medidas que tomamos é procurar um médico ou providenciar um remédio para que o mal seja extirpado. O prazer, a tranquilidade da alma e a ausência de perturbação são desejos que queremos ver realizados.
Essa paz espiritual e a experiência de viver sem dor e sofrimento já se encontra entre os gregos, em especial na filosofia de Epicuro(342-217 a. C.). Segundo ele, o ponto de partida de um modo de vida prazeroso está em não sentir fome, nem sede e nem frio. A felicidade de cada indivíduo encontra-se num exercício permanente em que buscamos não os prazeres momentâneos, doces e efêmeros. É por procurar unicamente esses prazeres que os homens encontram a insatisfação e a dor, porquanto esses prazeres são insaciáveis e, tendo chegado a certo grau de intensidade, tornam a trazer sofrimentos.
A felicidade suficiente, perfeita e plena e o prazer estável são escolhas que nós podemos fazer, ao invés de sermos torturados por desejos vazios: a riqueza, a luxúria, a dominação. Assim, devemos optar pelos desejos naturais e necessários, que são aqueles que levam à satisfação de nos libertarmo de uma dor e que correspondem às necessidades elementares, às exigências vitais. Diz Epicuro: “Graças sejam rendidas à bem-aventurada Natureza que fez com que as coisas necessárias sejam fáceis de alcançar e que as coisas difíceis de alcançar não sejam necessárias”.
Para aprofundar e melhor esclarecer sua posição, Epicuro formula o que ele chama de “quádruplo remédio”: 1. Os deuses não são feitos para temer; 2. A morte não é feita para amedrontrar; 3. O bem não é fácil de conquistar e 4. Nem o mal de suportar.
De fato, quem quiser viver bem não deveria se pré-ocupar com a morte. Seria perturbador a nós se ficarmos organizando a nossa vida a partir do fim dela, pois enquanto cada um de nós existir a morte não existe e quando ela existir nós já não existimos mais. Enfim, a morte não é nada para nós, ou seja, nós nos bastamos as nós mesmos e quando a morte sobrevir nós não somos mais nós mesmos.
Deste modo, sumprimindo a morte de nossas preocupações, devemos nos ocupar com a vida. A satisfação de nossos desejos vem, portanto, pela prática da disciplina que nos leva saber contentar-se com o que é fácil de alcançar, com o que satisfaz as necessidades fundamentais do ser, e renunciar ao que é supérfluo. Fórmula simples, mas que não deixa de levar a uma alteração radical da vida: contentar-se com comidas simples, roupas simples, renunciar às riquezas, às honras, enfim, viver retirado.
É verdade que essa vida filosófica parece impossível nos dias atuais, mas podemos a partir dela olhar e observar que sentido estamos dando às nossas existências hoje. Será que vale o sacríficio amendrontarmo-nos com a morte, tornando-nos escravos de desejos insaciáveis que nos leva ao sofrimento e à dor? A pensar!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Filosofia e felicidade: O que é ser feliz segundo os grandes filósofos do passado e do presente


O que é felicidade? Provavelmente, cada pessoa que resolver responder a esta pergunta apresentará uma resposta própria, pois a felicidade, num certo sentido, é algo individual, pessoal e intransferível. Por outro lado, há uma ideia de felicidade que pertence ao senso comum e é compartilhada pela esmagadora maioria das pessoas: felicidade é ter saúde, amor, dinheiro suficiente, etc. Além disso, a ideia de felicidade não é uma coisa recente. Com certeza, ela acompanha o ser humano há muito tempo e faz parte de sua história.
Sendo assim, é possível traçar a evolução histórica dessa ideia, se nos debruçarmos sobre a disciplina que sempre se dedicou a investigar nossas ideias, de modo a defini-las e esclarecê-las: a filosofia. Na verdade, a ideia de felicidade tem grande importância para a origem da filosofia. Ela faz parte das primeiras reflexões filosóficas sobre ética, que foram elaboradas na Grécia antiga. Vamos, então, acompanhar a evolução histórica dessa ideia fazendo uma viagem pela história da filosofia.
A referência filosófica mais antiga de que se dispõe sobre o tema é um fragmento de um texto de Tales de Mileto, que viveu entre as últimas décadas do século 7 a.C. e a primeira metade do século 6 a.C. Segundo ele, é feliz “quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”. Vale atentar para a expressão “boa sorte”, pois disso dependia a felicidade na visão dos gregos mais antigos.
Bom demônio
Em grego, felicidade se diz “eudaimonia”, palavra que é composta do prefixo “eu”, que significa “bom”, e de “daimon”, “demônio”, que, para os gregos, é uma espécie de semi-deus ou de gênio, que acompanhava os seres humanos. Ser feliz era dispor de um “bom demônio”, o que estava relacionado à sorte de cada um. Quem tivesse um “mau demônio” era fatalmente infeliz.
Não há dúvida de que, entre os séculos 10 a.C. e 5. a.C, o pensamento grego tende a considerar os maus demônios mais frequentes do que os bons e apresentar uma visão pessimista da existência humana. Não é por acaso que os gregos inventaram a tragédia. Uma expressão radical desse pessimismo nos é fornecido por um velho provérbio grego, segundo o qual “a melhor de todas as coisas é não nascer”.
Foi a filosofia que rompeu com essa visão pessimista e procurou estabelecer orientações para que o homem procurasse a felicidade. Demócrito de Abdera (aprox. 460 a.C./370 a.C.) julgava que a felicidade era “a medida do prazer e a proporção da vida”. Para atingi-la, o homem precisava deixar de lado as ilusões e os desejos e alcançar a serenidade. A filosofia era o instrumento que possibilitava esse processo.
Virtude e justiça
Sócrates (469 a.C./399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando que ela não se relacionava apenas à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para ele, o homem não era só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, a felicidade era o bem da alma que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa.
Para Sócrates, sofrer uma injustiça era melhor do que praticá-la e, por isso, certo de estar sendo justo, não se intimidou nem diante da condenação à morte por um tribunal ateniense. Cercado pelos discípulos, bebeu a taça de veneno que lhe foi imposta e parecia feliz a todos os que o assistiram em seus últimos momentos.
Entre os discípulos de Sócrates, Antístenes (445 a.C./365 a.C.) acrescentou um toque pessoal à ideia de felicidade de seu mestre, considerando que o homem feliz é o homem autossuficiente. A ideia de autossuficiência (que, em grego, se diz “autarquia”,) continuará diretamente vinculada à de felicidade nos setecentos anos seguintes.
Uma função da alma
Mas o maior discípulo de Sócrates, que efetivamente levou a especulação filosófica adiante de onde a deixara seu mestre, foi Platão (348 a.C./347 a.C.), o qual considerava que todas as coisas têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtem a felicidade.
É importante deixar claro que noções como virtude e justiça integram uma vertente do pensamento filosófico chamada Ética, que se dedica à investigação dos costumes, visando a identificar os bons e os maus. Para Platão, a ética não estava limitada aos negócios privados, devendo ser posta em prática também nos negócios públicos. Desse modo, o filósofo entendia que a função do Estado era tornar os homens bons e felizes.
A ligação entre ética e política estará ainda mais definida na obra do mais importante discípulo de Platão, Aristóteles (384 a.C./322 a.C.), o qual dedicou todo um livro à questão da felicidade: a “Ética a Nicômaco” (que é o nome de seu filho, para quem o livro foi escrito). Amigo de Platão, mas, em suas próprias palavras, “mais amigo da verdade”, Aristóteles criticou o idealismo do mestre, reconhecendo a necessidade de elementos básicos, como a boa saúde, a liberdade (em vez da escravidão) e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz.
Felicidade intelectual
Por outro lado, a partir de uma série de raciocínios que têm como base o fato de o homem ser um animal racional, Aristóteles conclui que a maior virtude de nossa “alma racional” é o exercício do pensamento, pelo quê, segundo ele, a felicidade chega a se identificar com a atividade pensante do filósofo, a qual, inclusive, aproxima o ser humano da divindade.
Sem perder de vista a aplicação prática de suas ideias, Aristóteles considera a política como uma extensão da ética e, nesse sentido, para ele também é uma função do Estado criar condições para o cidadão ser feliz. O Estado que o filósofo tinha em mente, porém, era a “polis” grega, que, naquele momento, estava deixando de existir, com o surgimento do império de Alexandre o Grande.
Depois de Alexandre, no mundo grego ou helênico, desenvolveram-se três escolas filosóficas que vão se estender até o fim do Império romano, as chamadas filosofias helenísticas. Todas elas, por caminhos diferentes, chegam a conclusão de que, para ser feliz, o homem deve ser não só autossuficiente, mas desenvolver uma atitude de indiferença, de impassibilidade, em relação a tudo ao seu redor. A felicidade, para eles, era a “apatia”, palavra que, naquela época, não tinha o sentido patológico que tem hoje.
Prazer e salvação da alma
Entre os filósofos do mundo helênico, pode-se citar Epicuro (341 a.C./271 a.C.), para deixar claro que essa ideia de “apatia” não significa abdicar ao prazer. O prazer era essencial à felicidade para Epicuro, cuja filosofia também é conhecida pelo nome de hedonismo (em grego “hedone” quer dizer “prazer”). Mas ele deixa claro, numa carta a um discípulo, que não se refere ao prazer “dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao da impassibilidade que liberta de desejos e necessidades.
Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu do horizonte da filosofia. Estando relacionada à vida do homem neste mundo, ela não interessou aos filósofos cristãos como Agostinho de Hipona (354 d.C./430 d.C.),Anselmo de Canterbury (1033/1109) ou Tomás de Aquino (1225/1274), todos santos da Igreja católica. Para a filosofia cristã, mais do que a felicidade, o que conta é a salvação da alma.
Os filósofos voltaram a se debruçar sobre o tema na Idade Moderna. John Locke(1632/1704) e Leibniz (1646/1716), na virada dos séculos 17 e 18, identificaram a felicidade com o prazer, um “prazer duradouro”. Alguns décadas depois, o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724/1804), na obra “Crítica da razão prática” definiu a felicidade como “a condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade”.
Direito do homem
No entanto, para Kant, como a felicidade se coloca no âmbito do prazer e do desejo, ela nada tem a ver com a Ética e, portanto, não é um tema que interesse à investigação filosófica. Sua argumentação foi tão convincente que, a partir dele, a felicidade desapareceu da obra das escolas filosóficas que o sucederam.
Mesmo assim, não se pode deixar de mencionar que, no mundo de língua inglesa, na mesma época de Kant, a ideia de felicidade ganhou lugar de destaque no pensamento político e buscá-la passou a ser considerada um “direito do homem”, como está consignado na Constituição dos Estados Unidos da América, que data de 1787 e foi redigida sob a influência do Iluminismo.
Egocentrismo e infelicidade
É também no âmbito da filosofia anglo-saxônica, no século 20, que se encontra uma nova reflexão sobre nosso assunto. O inglês Bertrand Russell (1872/1970) dedicou a ele a obra “A conquista da felicidade”, usando o método da investigação lógica para concluir que é necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens para ser feliz. Para ele, em síntese, a felicidade é a eliminação do egocentrismo.
Mais recentemente, em 1989, o filósofo espanhol Julián Marías também dedicou ao tema um livro notável, “A felicidade humana”, em que estuda a história dessa ideia, da Antiguidade aos nossos dias, ressaltando que a ausência da reflexão filosófica sobre a felicidade no mundo contemporâneo talvez seja um sintoma de como esse mesmo mundo anda muito infeliz.
Bibliografia
Abbagnano, Nicola - "Dicionário de Filosofia", Martis Fontes, São Paulo, 2000.
Berti, Enrico - "No princípio era a maravilha", Loyola, São Paulo, 2010.
Marías, Julián - "A felicidade humana", Duas Cidades, São Paulo, 1989.

Antonio Carlos Olivieri Antonio Carlos Olivieri é jornalista e escritor.

O mundo contemporâneo e os seus valores


O tempo de hoje não é mesmo mais o tempo de ontem. Mas isso não é uma obviedade qualquer. Desde a infância, o homem é estimulado a consumir. Aliás, a criança é fonte de lucro. Basta ver as propagandas sobre produtos que devem ser adquiridos para satisfazer e “garantir” uma vida boa para os bebês que ainda vão nascer. Já na barriga da mãe eles são fontes de dinheiro. Tudo passa a valer a pena ser comprado. Os tentáculos do consumo têm provocado uma mudança profunda nos valores que tomamos para guiar as nossas vidas. O mundo dos desejos pertencem a outrem, que vai nos estimulando a cada instante a trocar, a comprar, enfim, a consumir. E o que se constata é que o produto adquirido torna-se descartável daqui a pouco. Nada é estável e nem consolidado.
Ao fim de tudo, o desejo torna-se infinito por natureza e passamos a maioria do nosso tempo vital tentando saciá-lo. E ao mesmo tempo convivemos com a insatisfação permanente. Nem ao menos aprendemos a manipular uma TV ou qualquer outro aparelho eletrônico, a publicidade nos diz que surgiu um mais moderno e requintado. É preciso trocar!
Parece que convivemos em um tempo que não nos dá mais a chance de refletir, pois há uma “sociedade secreta” que pensa por nós. Dá aquela sensação de que estamos sendo manipulados por forças alheias à nossa vontade. Nem precisamos ir mais às Igrejas ou recorrer à família ou a um partido político para buscar, viver ou experimentar valores ou mandamentos. Tudo já está pensado, fabricado e pronto para ser digerido e vivido.
Não são poucos os pensadores que escreveram sobre isso. Nietszche, Max Weber, Zigmunt Bauman, entre outros, considero os mais proeminentes que abordam a questão. Os valores universais que orientavam e davam sentido ao agir humano parece que foram substituídos e aniquilados. Tudo agora é efêmero, descartável, flácido, desencantado, liquido e ultrapassado. Se quisermos alguma dignidade no viver é preciso estar aberto ao novo a todo instante. Um novo que nem dá tempo de conhecê-lo direito, pois em pouco tempo já está velho.
Uma situação como essa lembra as frutas que são amadurecidas artificialmente. O seu sabor, o seu perfume e a sua textura se revestiram de uma qualidade e de características quase irreconhecíveis. Visto que nada mais é durável, isto é, a rapidez é o mote e o motivo da vida humana, novos valores precisam ser inventados bem como novas posturas e atitudes.
Viver na contemporaneidade é enfrentar as trevas e as luzes que ela lança sobre nós. Ser contemporâneo é ter a capacidade de reconhecer a presença da imagem de algo que ausenta a todo instante, pois percebe que a vida e, nós mesmos, somos incompletos e provisórios. “Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, diz o filósofo Giorgio Agamben.  Os valores do nosso tempo estão constitutivamente adiantados a si mesmo e a nós e, exatamente por isso, também sempre atrasados, pois tem sempre a forma de um limiar inapreensível entre um “ainda não” e um “não mais”. O desafio é viver nesse limiar. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O QUE É O HOMEM?



Quando começa um novo ano sempre tendemos a considerar e a reconsiderar os planos e os projetos para o futuro, com a esperança de que as coisas vão melhorar. É intrínseco à condição humana desejar que os rumos da vida se aperfeiçoem em direção a um estado de felicidade universal. Ninguém em sã consciência, ou até sem ela, faria pedidos para que sua existência tornasse um mar de espinhos, com dores e sofrimentos.
No entanto, experimentamos em nosso cotidiano situações em que temos alegrias, sim, porém, também vivemos momentos terríveis: doenças, mortes de familiares, acidentes, crises, etc. Estamos sempre na berlinda, ou seja, a qualquer instante podemos ser atravessados por uma tragédia que nos atinge inesperadamente. Aquele ser forte, destemido, esperançoso, crente de que nada o derrubaria, é quase aniquilado. Na linguagem do boxe: vai à lona. Temos que contar até dez para conseguir se levantar, suportando e superando a dor.
Creia! Ser feliz todo tempo é somente para os deuses, e olhe lá!  Pois não sabemos como vive um deus. Aliás, alguém agüentaria conviver com uma pessoa alegre e sorridente vinte e quatro horas por dia? Nós, humanos, aqui na terra, somos desafiados a aprender a enfrentar as agruras e as calamidades pessoais, naturais e sociais de maneira destemida. É verdade que há momentos em que fraquejamos, revelando a nossa finitude. Estou dizendo tudo isso para chamar a atenção para duas coisas: primeiro, quem somos nós e, segundo, o que podemos querer da vida.
Etimologicamente, homem vem do latime homine, que advem de húmus, referindo ao chão, à terra, àquilo que é terrestre. Como se vê, estaríamos distante dos céus, e dos deuses, mas ligado ao pó. Componente da natureza, o homem é um ser limitado, incompleto e, a crer em Darwin, originário de um processo evolutivo da vida na terra que não se sabe, definitivamente, quando começou e muito menos quando vai se acabar. Ou seja, não dá para dizer que hoje é melhor do que ontem, e que amanhã será melhor do que hoje.
Todavia, aprendemos ou até mesmo agimos ao longo de nossa vida como se fôssemos ou pudéssemos ser senhor de nossa história. Essa seria a nossa diferença com os outros seres viventes. E essa distinção estaria fundada na nossa capacidade de raciocinar e agir inteligentemente. Ao contrário de certos animais, que já nascem prontos, isto é, já nascem sendo tudo aquilo que podem ser, o homem, por sua vez, é potência, campo aberto a ser cultivado. Estamos aí para sermos feitos e construídos.
Dito de outro modo, além de razão, somos dotados de vontade, ou seja, estamos aptos a escolhermos e decidirmos sobre o que queremos e desejamos para as nossas vidas. E aqui, nos parece, que está o nosso grande mistério.
Enfim, estamos diante de um desafio. Como conciliar um ser natural, racional e dotado de vontade, em prol de uma vida mais agradável a todos e não apenas a alguns? Seria possível?