sexta-feira, 24 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Medicalização: remédio ou veneno?





Tornou-se uma prática predominante na sociedade atual e nas escolas o uso de remédios para que as pessoas se mantenham saudáveis e curadas. Há uma naturalização do uso de medicamento no cotidiano das pessoas. Você que está lendo esse texto agora é bem provável que haja a seu lado ou em sua casa, na sua bolsa ou no seu bolso, na gaveta de seu local de trabalho, etc., algum tipo de remédio, nem que seja para um simples dor de cabeça.
     Afora a indústria bélica, ou seja, de armas, a indústria de medicamentos é a que tem mais crescido e investido, faturando bilhões de dinheiros. Qualquer problema diagnosticado é motivo para emitir uma receita. É muito difícil você sair de uma consulta médica sem ter uma em mãos. Há até o absurdo dos médicos ganharem prêmios, brindes e viagens por receitarem o maior número desse ou daquele medicamento, favorecendo esse ou aquele laboratório. Por exemplo, em cinco anos, a venda de antidepressivos no Brasil subiu 48%. Segundo especialistas, o aumento nas vendas desse tipo de medicamento se deve à prescrição exagerada da "pílula da felicidade", tanto por médicos de outras áreas quanto para pacientes sem depressão.
     Esse é o diagnóstico que também tem alarmado os pesquisadores e educadores. Nas escolas, supostos problemas de comportamento ou de aprendizagem são tratados como uma doença que deve ser curada por meio da medicina somente. Nos últimos anos tem crescido assustadoramente o número de crianças que tem sido diagnosticadas e tratadas com remédios nas escolas. Segundo dados dos dados do IDUM, isto é, o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, em 2.000 foram vendidas 71.000 caixas de Ritalina ou metilfenidato, sendo que em 2010 esse número subiu para 2.000.000 de caixas vendidas. Todo esse processo é chamado de medicalização da sociedade e da educação.
De maneira geral, a medicalização é um mecanismo e uma ação que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos. Problemas de diferentes ordens são apresentados como ‘doenças’, ‘transtornos’, ‘distúrbios’ que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais e afetivas que afligem a vida das pessoas. Segundo manifesto do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade (www.medicalizacao.com.br), questões coletivas são tomadas como individuais; problemas sociais e políticos são tornados biológicos. Nesse processo, que gera sofrimento psíquico, a pessoa e sua família são responsabilizadas pelos problemas, enquanto governos, autoridades e profissionais são eximidos de suas responsabilidades.
Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e consequentemente “consumidoras” de tratamentos, terapias e medicamentos, que transformam o seu próprio corpo no alvo dos problemas que, na lógica medicalizante, deverão ser sanados individualmente. Muitas vezes, famílias, profissionais, autoridades, governantes e formuladores de políticas eximem-se de sua responsabilidade quanto às questões sociais: as pessoas é que têm “problemas”, são “disfuncionais”, “não se adaptam”, são “doentes” e são, até mesmo, judicializadas.
A aprendizagem e os modos de ser e agir – campos de grande complexidade e diversidade – têm sido alvos preferenciais da medicalização. Cabe destacar que, historicamente, é a partir de insatisfações e questionamentos que se constituem possibilidades de mudança nas formas de ordenação social e de superação de preconceitos e desigualdades.
O estigma da “doença” faz uma segunda exclusão dos já excluídos – social, afetiva, educacionalmente – protegida por discursos de inclusão.
A medicalização tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas, abafando questionamentos e desconfortos; cumpre, inclusive, o papel ainda mais perverso de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando essas pessoas em “portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem”.
Enfim, a medicalização, com o discurso da cura e do cuidado, não passaria de um processo de envenenamento. No grego a palavra phármakon (donde farmácia) tem esses dois sentido: remédio e veneno. Talvez seja isso!

Alonso Bezerra de Carvalho é professor da Unesp. E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br






terça-feira, 31 de julho de 2012

Conheça a verdade e ela te libertará, mas libertará do quê?



 Ao responder essa questão, sem floreio, a minha resposta é: nos libertará da ignorância, do medo e da dominação dos outros. É evidente que há outras razões a serem abordadas. No entanto, essas são as que considero nucleares quando o assunto trata da importância do conhecimento da verdade.
O que você lerá a seguir é a reflexão sobre cada um dos itens desta resposta. Sendo que o objetivo central deste escrito é facultar aos leitores do mesmo, as condições de possibilidades para termos uma vida sem tantas dores existenciais.

1.   Por que o conhecimento da verdade nos liberta da ignorância?

No artigo escrito por mim, cujo título é: “As razões que justificam ser a verdade um bem”, procurei detalhar a etimologia do conceito verdade. Por isso, farei um atalho e irei direto ao foco.
Gnose é uma palavra de origem latina. Traduz a ideia de conhecimento. Contudo, de modo geral é usada no sentido do conhecimento do Eu na relação com o Transcendente. A letra “I” no latim – semelhante ao que ocorre com a letra     “A” no grego clássico -, é utilizada em muitas palavras como prefixo de negação. Razão pela qual a palavra ignorância pode ser compreendida como o “não conhecimento”, ou seja, ignorante é aquele que não conhece.
Você concorda com a expressão: “todos nós somos ignorante em assuntos diferentes”? Lembro-me que li isso em 1987 e nunca mais deixei de pensar que isso é mesmo algo significativo. É por isso que termos a humildade perto de nós, faz toda a diferença em nosso dia-a-dia. O arrogante, por pensar que sabe tudo, não aceita o diferente. Pensa que ninguém pode lhe ensinar algo. Por ser assim, acaba sofrendo, entre outras coisas, com o isolamento social. Isso porque as pessoas, ao perceberem que suas ideias nunca são consideradas, acabam por se afastar dessa pessoa.
A filosofia é movimento. É a procura amorosa da verdade, nunca sua posse definitiva. Se estivermos abertos à possibilidade do novo, sofreremos menos.
No livro Convite à Filosofia da Marilena Chauí, de forma brilhante, ela responde à seguinte questão: por que o homem busca o conhecimento? Diz-nos que a principal razão de ser do conhecimento é o desejo humano de resolver seus problemas. Para ilustrar melhor essa questão lançarei mão de um recurso didático que gosto muito, que consiste em apresentar as ideias em forma de tópicos. São eles:
·       Karl Marx (1818-1883) teve cinco filhas e um filho. Quando seu guri tinha 14 anos foi acometido de forte infecção na garganta. Marx e seu grande amigo Engels estudaram mais do que os médicos da Inglaterra da época para encontrarem uma solução para o filho. Resultado: seu filho morreu. Isso lhe causou dores existenciais profundas. Claro que para sua esposa – Geni – também. Se fosse hoje, talvez, uma amoxilina poderia salvar seu filho. No século XIX não se conhecia esse remédio;
·       No campo da economia isso não é diferente. Aquele que conhece bem o funcionamento do mercado e atua com vendas, por exemplo, certamente sofrerá menos à medida que fará uma leitura melhor da conjuntura econômica, etc. Já escrevi em outro momento que eu e meus sócios, por não conhecermos muito do sistema tributário, acabamos pagando uma fortuna de impostos sem necessidade. Somente depois de fazermos um estudo exaustivo do Simples Nacional, percebemos que um bom planejamento tributário seria a solução para podermos continuar prestando um bom serviço à sociedade;
·       Outro exemplo que aconteceu recentemente comigo: hoje eu moro em Cascavel, no oeste do Estado. Estou me organizando para voltar a morar em Curitiba. Encontrei na internet o anúncio da venda de um terreno. Que nele a prefeitura autoriza construir prédios com até quatro pavimentos. O principal diferencial do anunciante foi destacar isso. Ao ligar para três amigos que moram em Curitiba, se valeria a pena investir nesse local para lá morar, um disse-me: “- Ivo, se você pretende fazer parceria com alguma construtora para depois do imóvel pronto você ficar com um apartamento é possível, mas eles só aceitam quando o terreno tem 17 metros de frente”. Ora, o imóvel anunciado só tem 10,4 metros. Portanto, graças a essa informação evitarei uma frustração amanhã. Uma simples demonstração do quanto o conhecimento da verdade é importante;
·       No que tange ao campo do direito isso fica ainda mais evidente. Quantos que sofrem por não conhecerem as leis que regulamentam a vida que o cerca? Se existe algo que me entristece nas relações humanas é quando alguém começa a me dizer: - “Isso você não pode fazer porque não é legal”! Quando você pergunta de que lei ela está falando, ela diz: “Eu não sei o número da lei, mas posso lhe garantir que não pode”! Barbaridade! Não aceite essa imposição. Estou agindo com tolerância zero em face disso. Chega de especulação!
Não aceite as coisas com base no ouvir dizer. Hoje, com o recurso dos portais de busca, basta você digitar a lei tal, que já aparece o número, de onde emanou, etc. Dessa forma, ao buscar as informações na fonte, nos livraremos dos atravessadores que, muitas vezes, aumentam o floreio para nos dominar. Convido-lhe a seguir essa leitura. Vou lhe apresentar meu entendimento acerca da questão do medo.

2.   Por que o conhecimento da verdade nos liberta do medo?

Se você já leu outros artigos meus, deve ter percebido que em quase todos eu cito Espinosa (1632-1677). No tocante a essa temática, não há como não cita-lo. Até porque pelo pouco que conheço da Filosofia, ele foi um dos filósofos que abordou essa questão do medo com muita propriedade. O que basicamente ele nos diz a esse respeito?
O homem teme a morte. Creio que você concorda com essa afirmação. Ninguém deseja conscientemente morrer. Nós nos esforçamos para prolongarmos nossa existência. Assim, vivemos uma dicotomia. Diante nós reinam duas forças: o medo e a esperança. Medo que algo possa vir a me acontecer e esperança de que tal mal não me aconteça.
      A título de exemplificação, vou citar algumas situações que vivemos hoje. Existem muitos consultores que primeiro vendem dificuldades para depois venderem facilidades. Eu mesmo conheço vários. Primeiro, começam fetichizando seus títulos acadêmicos. Depois, põem medo nas pessoas acerca de uma determinada situação. Por fim, dizem: - “eu tenho a chave de como resolver isso, só que meu preço é tanto”. Eu vivenciei uma situação análoga.
Por uma questão ética vou lhe contar o “milagre, mas não o santo”. Numa certa feita um ator social X dizia: - “olha isso, não dá para fazer, o MEC não deixa”! “A lei, X proíbe isso”. E assim por diante. Depois de colocar medo no seu superior que não conhecia as leis educacionais, ele começou barganhar um valor exorbitante para resolver tais problemas que ocorriam em sua instituição.
Devemos muito aos pensadores iluministas do século XVIII. O que se convencionou chamar de primavera árabe, nada mais é do que uma revolução francesa tardia. Os movimentos sociais no mundo árabe buscam entre outras coisas, libertarem-se do medo imposto pelos líderes políticos e religiosos ao longo de séculos. O desejo de liberdade, igualdade e fraternidade ecoam até hoje no coração de muitos seres humanos. Dos que não aceitam ser subjugados por aqueles que dizem ter o “sangue azul”.

3.   Por que a verdade nos liberta da dominação?

Em latim dominus significa senhor. Por isso, o conceito dominação pode ser compreendido como “ação do senhor”. Em outras palavras: aquele que exerce um poder sobre outrem. Daí que vem a palavra domingo, ou seja, dia do senhor.
Talvez você concorde comigo que é da condição humana a necessidade de termos líderes. E éincrível como isso é tão natural. Quem trabalha como educador ou educadora, pode comprovar o que escrevo. Basta às crianças irem crescendo que logo começam a se destacar alguns com espírito de liderança.
Ocorre que existem alguns líderes que desejam garantir privilégios a qualquer custo. Para tanto, criam uma ideologia. E o que isso significa? Constroem um corpo de ideias muito bem fundamentado, capaz de dar sustentação aos seus interesses. A partir disso começam a persuadir os outros através de uma comunicação perlocucionária, como bem nos mostra Habermas (1929...).
Recentemente eu ouvi um líder religioso falando pela TV. Para persuadir os outros dizia: - “isso está na Bíblia, portanto é legítimo que eu aja assim”! “Por que se pode usar o cartão de crédito em diversos locais e nós não podemos usar em nossa igreja”?, etc. Ao desconstruirmos o seu discurso poderemos chegar ao êidos do fenômeno, qual seja, de que sua verdadeira intenção é ver seu patrimônio aumentando, independentemente da situação em que os outros se encontram.
Portanto, o conhecimento da verdade é fundamental para todos aqueles que desejam construir uma vida pautada pela razão. Para aqueles que desejam ter uma espiritualidade desfetichizada, livre do medo e da imposição da pseudo verdade dos outros.
Se esta leitura contribuiu para o fortalecimento do seu conatus, meu objetivo foi alcançado. Sobre esse conceito em negrito, você encontrará mais informações no meu artigo “Como superar uma grande paixão”, disponível no meu blog: www.itecne.edu.br/ivo  Notoriamente, desejo que leia meus textos... rs!


[1]Ivo José Triches é escritor, palestrante, Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blog www.itecne.edu.br/ivo  também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Como superar uma grande paixão!




Por Ivo José Triches[1]


Refletir sobre esse assunto é para mim um dos mais apaixonantes. Espero que ao terminar de lê-lo você possa dizer que valeu a pena ter parado suas atividades para dedicar-se a essa leitura.
Claramente há uma intencionalidade principal neste escrito. Qual? Contribuir para melhorar o endereço existencial daqueles que necessitam dessa reflexão. Será que conseguirei atingir tal intento?Veritas filia temporis (a verdade é filha do tempo). Boa leitura!
1.   A base teórica deste artigo
Só eu sei o quanto eu não sei, mas do pouco que aprendi até hoje, não conheci nada tão significativo quanto a teoria de Espinosa (1632-1677) quando o assunto é a questão das paixões.
Se você já leu outros artigos meus, deve ter percebido que Espinosa já foi citado várias vezes. Ocorre que de fato esse pensador passou a influenciar muito a minha forma de pensar desde o dia que comecei a aprender aspectos do seu pensamento. Estou lendo suas obras. Li vários comentadores, principalmente a Marilena Chauí e Cláudio Ulpiano.
Na graduação em Filosofia praticamente não me lembro de ter visto algo sobre ele. Contudo, quando fui professor da Rede Estadual de Educação do Paraná tive o privilégio de ter conhecido um professor que marcou a minha vida. Foram dois encontros apenas. Foi Cláudio Ulpiano (UFF). Já falecido justamente por uma paixão da tristeza que o acompanhou por muitos anos, qual seja, o cigarro.
Evidentemente que abordarei aqui a questão da paixão amorosa. Entretanto, antes de chegar a ela torna-se necessário lhe apresentar alguns conceitos que são fundamentais na teoria espinosiana para que você de fato entenda essa temática, bem como possam orientar suas ações, se assim lhe convier. São eles:
Conatus: força intrínseca a todos os seres que nos chamam para a vida. Em outras palavras: é a luta pela existência. Ninguém deseja conscientemente morrer. Por que nós somos mais assustados que os jacarés? Porque nossa visão é mais limitada. Temos o controle de no máximo 180º. Ao passo que o jacaré tem os olhos em cima da cabeça. Enxerga mais. Ele só reage se o seu conatus estiver ameaçado.
Outro exemplo: quando eu era pequeno, lembro-me que havia um homem muito mau lá na Linha Famoso, município de Descanso, Estado de Santa Catarina. Foi lá que passei os primeiros anos de minha infância, razão pela qual amo tanto o sítio.  Esse homem matava os outros com facilidade. Vivia envolvido em confusão. Quando ele ia à bodega tomar uma pinga, nunca ficava de costas para entrada do bar. Por quê? Porque tinha medo de ser ceifado. Ele matava o conatus dos outros e por isso temia que o seu fosse abatido.
Por isso que a expressão: “encostar a cabeça no travesseiro e dormir em paz” faz todo o sentido. Portanto, para Espinosa a regra é clara, ou seja, se nas minhas ações eu buscar fortalecer o meu conatus e também o conatus daqueles que me rodeiam, certamente minha capacidade de existir aumentará. No entanto a recíproca é verdadeira.
A partir desse pressuposto ele vai produzir o seu conceito de Ética que não é o foco aqui. Em outro momento escreverei sobre esse tema.
Hoje em dia fazemos o uso do conceito depressão com facilidade. Isso quando queremos nos referir a alguém que está triste, que não vê perspectiva em face do futuro, etc. Pois bem! Para Espinosa, essa pessoa está com o seu conatus enfraquecido. E por quê? Certamente porque está envolta em muitaspaixões da tristeza. As pessoas – não todas - com as quais ela convive, podem estar com muitas paixões da tristeza também. É possível que estejam puxando essa pessoa para baixo, com “cabos de aço”, como bem sinaliza Lúcio Packter sistematizador da Filosofia Clínica. Desse modo é necessário entendermos o que são paixões e como elas se classificam, segundo Espinosa.
O que são as paixões para Espinosa? São as vibrações, afecções que o nosso conatus sente. Elas são exteriores ao sujeito. A etimologia deste conceito é grega. Pathos = sofrer, deixar-se levar por... Daí deriva em nossa língua portuguesa a palavra patologia. De forma breve: a ciência que estuda as doenças. Associado a isso é relevante destacar que Platão considerava a paixão amorosa uma enfermidade do coração. Da mesma forma que nosso corpo sofre quando estamos com gripe, nosso coração padece quando estamos apaixonados. Uma visão negativa do conceito, evidentemente. Já para Espinosa esse conceito passa a ter uma conotação diferente.
Há sim uma ligação da etimologia dessa palavra com o significado atribuído por Espinosa, mas é apenas parcial. Isso porque para ele as paixões se classificam em dois grupos. As da tristeza e as da alegria.
O que são as paixões da Tristeza? São afecções, vibrações que o nosso conatus sente. Isso já foi dito acima você talvez esteja pensando. Uma vez existindo esse tipo de paixão em nós, nosso conatus ficará enfraquecido. Ele também definiu como paixões fracas. E por quê? Porque ao permitirmos que elas existam em nós, nossa capacidade de existir ficará diminuída.
Para mim isso está claro. Um ator social que se deixa levar pelas forças que vem de fora, que vive a partir das paixões da tristeza, vive menos até cronologicamente.
Como o texto ficaria excessivamente longo, não abordarei cada paixão como tenho o hábito de fazer em minhas aulas. Citarei apenas as principais. São exemplos de paixões da tristeza: o vício, a inveja, o ciúme, a mágoa, o ódio, etc.
Ao fazermos uma ligação com os seus três conceitos de conhecimento, poderemos afirmar, com segurança, que uma pessoa tomada por paixões da tristeza está apenas no primeiro. No nível da consciência (o segundo é o da razão e o terceiro o da ciência intuitiva). Ele compreende que sofre, mas escolhe não romper com essa lógica. Isso porque pensa no hedonismo que suas paixões lhe proporcionam. Não se dá conta que tem um caminho fácil no começo e espinhoso depois.
Para ilustrar isso vou exemplificar com a situação de muitos estudantes hoje. Há pessoas que fazem curso à distância do conhecimento. Preferem aqueles que são rápidos. Cujo diploma possa ser obtido sem grande esforço. Alguns desses cursos são ofertados na modalidade presencial, mas não há comprometimento por parte do estudante e, muitas vezes, das instituições também.
Assim o caminho que foi mais fácil no começo, tornar-se-á o mais difícil depois. Ele passou pelo curso, mas o curso não passou por ele. Não ocorreu a transcendência. Na hora que for chamado à responsabilidade terá grande dificuldade. Eu já presenciei isso com vários professores e professoras ao longo desses anos como Educador.
Isso implica em dizer que uma pessoa assim, deixa-se levar pelas forças que vem de fora. É um corpo marcado por outros corpos, como bem salientou Cláudio Ulpiano. Outro exemplo: o fiel que age conforme as orientações do seu líder religioso. Passemos agora a conhecer outra possibilidade de ser.
O que são as paixões da alegria? São as afecções ou vibrações que nosso conatus está afeto. Se em ti coabitarem mais paixões da alegria, você viverá mais até cronologicamente. Terá menos dores existenciais. Espinosa dizia que o homem forte é aquele que vive a partir das paixões da alegria. Seria o homem ético para ele. O homem da moral é aquele que vive a partir das paixões da tristeza.
Eu defino a felicidade como um estado de contentamento da alma. Ela é possível? Sim. No entanto dependerá das escolhas que fizermos. Não dá para desejar a felicidade permitindo que as paixões da tristeza tomem conta da minha existência. São exemplos de paixões da alegria: a virtude, a admiração, a amizade, a misericórdia, a bondade, o perdão, etc.
O que é a Liberdade para Espinosa? Consiste na capacidade que um ser tem de agir sem restrições. Partindo desse pressuposto podemos dizer que Deus é livre. E o homem? Pois então! Para ele o homem só consegue conquistar a sua liberdade se chegar ao terceiro conceito de conhecimento, qual seja, o da consciência intuitiva.
Liberdade e pensamento são dois conceitos importantíssimos na teoria espinosiana. O homem, por ser dotado de razão, é capaz de chegar ao conhecimento das coisas. A partir daí, se assim desejar, poderá ser o fundamento do seu próprio fundamento moral. Poderá inventar-se. Ele tem seu poder ampliado, e começa mudar o que vem de fora. Sendo, portanto, portador de liberdade.
A partir dos conceitos apresentados acima, chegamos, finalmente, próximo da compreensão de como poderemos superar uma grande paixão. Vamos adiante?

2.  A superação de uma grande paixão segundo Espinosa

De pronto enfatizo que eu também partilho dessa resposta apresentada por ele. Por isso no título não destaquei Espinosa.
Na sua obra chamada ÉTICA, mais precisamente na Quarta Parte na VII proposição ele afirma: “Uma paixão não pode ser reprimida nem suprimida senão por outra paixão contrária e mais forte do que a paixão a suprimir”.
Ao partir dessa afirmação vou – de forma breve – lhe apresentar como  as paixões amorosas eram vistas no séc. XVII. Na verdade, até hoje o sexo é visto, por muitos, como coisa suja, causa dos nossos pecados, etc.
Na época de Espinosa isso não era diferente. Quando alguém sofria os efeitos da paixão deveria sufoca-lá através da ascese, ou seja, do exercicio espiritual. Ao se autoflagelar[2], tomar banho frio, não tocar no corpo, acreditava-se que o homem chegaria mais próximo de Deus. O discurso era (e é, para muitos): o “importante é salvar a minha alma”. Para isso o corpo necessita padecer. Uma visão maniqueísta que Espinosa refuta com veemência. Ele nos diz que o fato de existir em mim o desejo por alguém, isso não se constitui em um mal nem em um bem. Dependerá de como eu agirei em face dessa paixão.
Se uma paixão ao realizar-se aumentar em mim a capacidade de existir isso se constituirá em um bem. Porém, se os resultados decorrentes da busca pela realização da referida paixão enfraquecerem o meu conatus, evidentemente, que a mesma será um mal. Nas palavras de Espinosa: “Uma paixão, na medida em que se refere à alma, é uma ideia pela qual a alma afirma uma força de existir de seu corpo, maior ou menor que antes. Portanto, quando a alma é dominada por alguma paixão, o corpo, ao mesmo tempo, é afetado por uma afecção que cresce, ou aumenta, ou diminui a sua potência de agir. Demais essa afecção do corpo recebe de sua causa a força de preservar no seu ser; ela não pode, pois, ser reprimida, nem suprimida, senão por uma causa corporal que afete o corpo contrariamente a ela, mais forte, e então, a alma será afetada pela ideia de uma paixão mais forte e contrária à primeira, isto é, a alma experimentará uma paixão mais forte, e contrária à primeira, que excluirá ou suprimirá a existência da primeira, e por isso, uma paixão não pode ser suprimida nem reprimida, a não ser que o seja por uma paixão contrária e mais forte”.  Ele escreve isso ainda dentro da proposição VII.
Imaginemos agora que uma pessoa se apaixone perdidamente por outra, mas não há a mínima possibilidade que tal paixão seja correspondida. Há basicamente duas possibilidades:
A primeira é que ela fique sofrendo e insistindo na tentativa de obter êxito. Se ela não conseguir tal intento as dores existenciais serão enormes. Ela sofrerá e fará o outro sofrer à medida que ficará perturbando a alma dessa pessoa. Isso poderá lhe causar danos irreparáveis tanto a ela que está afeta a essa paixão e depois nos outros envolvidos no processo;
A segunda possibilidade é que ela decida deixar que a pessoa amada siga seu caminho. Ao fazer isso, poderá canalizar todas as suas forças em outra atividade que seja socialmente aceita. A partir disso lentamente o tempo se encarregará de apagar as dores da paixão não correspondida. Ela perceberá que sua potência de agir será aumentada. Seu conatus voltará a estar fortalecido e novos dias virão.
Creio que tenha sido dessa afirmação acima de Espinosa que Freud construiu o seu conceito de sublimação. A Marilena Chauí afirmou no livro Espinosa, uma Filosofia da Liberdade que Marx e Freud produziram parte de suas ideias à luz do pensamento de Espinosa.
3.  Considerações finais
O lado bom de conhecermos a temática das paixões sob a perspectiva espinosiana é que as mesmas são tratadas sem o aspecto moralizante da grande maioria das religiões. Ao tentarmos compreender esse fenômeno sob o olhar circunscrito à razão, ficamos livres da culpa e da especulação que tanto mal fazem à alma humana.
Partilho daqueles que veem em Espinosa um pensador “embriagado de Deus”. Se partirmos do pressuposto de que Deus é vida e de que as paixões da alegria apresentadas por Espinosa são fontes da nossa longevidade, podemos inferir que há uma aproximação entre o que ele escreveu e o verdadeiro espírito de Jesus Cristo. Afinal uma das partes mais lindas do evangelho é a afirmação: “Eu vim para que todos tenham vida...”.
Evidentemente que conseguirmos substituir o vício pela virtude; a inveja pela admiração; o ciúme pela bondade e ou tolerância; a mágoa pelo perdão; a arrogância pela humildade, não é uma tarefa tão simples.
Contudo isso é possível. No último parágrafo de sua obra ÉTICA, Espinosa faz uma analogia com a joia. Diz-nos que da mesma forma que não é tão simples encontrarmos uma joia, mas ao encontra-lá não desejamos perdê-la, também não é fácil conseguirmos substituir as paixões da tristeza pelas da alegria. Entretanto à medida que conseguimos tal feito, não desejamos que esse novo momento acabe, porque o bem que elas nos proporcionam é incomensurável.
Espero que esse escrito tenha contribuído com sua formação e que suas escolhas sejam sempre as melhores.


[1]Ivo José Triches é escritor, palestrante e Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blogwww.itecne.edu.br/ivo  também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.
[2] Sugiro que assista ao filme O Nome da Rosa. É um retrato da Baixa Idade Média e que perdura até nossos dias. No movimento Opus Dei e em muitas congregações religiosas, isso é uma realidade até hoje.  Ainda: para os carismáticos na Igreja católica e para muitas religiões evangélicas, o sexo é visto até hoje como algo negativo, pecaminoso, etc.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ano 2020: A extinção dos professores


O ano é 2.020 D.C. - ou seja, daqui a nove anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
     – Vovô, por que o mundo está acabando?
    A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
 – Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo. 
  
   – Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor? 
  
   O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas.
Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.
     – Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios? 
  
   – Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos. 
  
   – E como foi que eles desapareceram, vovô?
     – Ah,foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito.
  Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. 
  
   Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos.Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você”ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”.
Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. Os professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. 
  
   Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular.
 Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de ideias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.
     Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, pagodeiros, agiotas,traficantes,artistas de novelas da televisão – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade. 
ATENÇÃO: Qualquer semelhança com a situação deste País ultrajado e saqueado por políticos, quadrilheiros e mafiosos, não é mera coincidência. É a  pura verdade

De: Carlos Anderson Nunes de Amorim

terça-feira, 22 de maio de 2012

Por que votar 13? Por que votar PT?, por Dr. Carlos Rodrigues



Vocês tem sentido a vida melhorar? Encontram-se mais otimistas?
É porque o Brasil melhorou, e nós melhoramos juntos.
Diziam-nos antigamente que era preciso crescer o bolo, para então dividir. Era mentira... poucos ficaram com um pedaço.
Nós estamos dividindo, enquanto fazemos o bolo crescer.
Explicaram que era porque o mundo todo estava melhorando, por isso o Brasil estaria melhor...., mas não parece verdade.
Existe um grande crise lá fora...., os outros países estão “quebrando”, e nós vamos seguindo cada vez melhor.
Você já pensou nisso?
A verdadeira explicação é que desde 2002, com o início do governo Lula, iniciamos um país para todos e colocamos o estado na direção da melhora da vida de toda a população. Essa política tem se mantido no governo da presidenta Dilma, que afirmou que país rico é país sem pobreza.
De forma que quando você vê seu salário comprar cada vez mais, tem dificuldade de encontrar pessoas que toquem a reforma na sua casa, pois todos estão muito ocupados, trabalhando muito; compra seu primeiro carro ou o troca por um novo; pela primeira vez pôde fazer aquela viagem, de lazer, ficando em hotéis, andando de avião....não pense que isso tudo caiu dos céus não.... isso é resultado de políticas de distribuição de renda e de justiça social, liderados pelo Partido dos Trabalhadores e seus políticos e técnicos.
Para conseguir melhorar sua vida, foi preciso um monte de iniciativas alinhadas, como por exemplo:
  1. Os programas de renda mínima ou cidadã, que dá a você, muito pobre, uma ajuda para a manutenção de seus filhos na escola, tornando desnecessário que você o tire da escola para trabalhar e ajudar em casa. Assim, com mais estudo, futuramente conseguirá um emprego melhor e manterá sua futura família com menos dificuldade.
  2. A recuperação do poder de compra (aumento) do valor do salário mínimo, com o controle da inflação, fazendo com que você possa levar mais mantimentos para casa e melhorar seu orçamento doméstico. Em 10 anos o aumento salário mínimo acima da inflação foi de 66%.
  3. O emprego com carteira assinada, então, cresceu como nunca. Só em 2011 foram cerca de 2.350.000 novos empregos e o desemprego despencou, e nunca esteve em faixa tão baixa (menos de 5% da população ativa).
  4. Temos hoje no país cerca de 30.000 equipes de saúde da família, contribuindo para a manutenção de sua saúde e de sua família, ali, onde vocês moram.
  5. Os remédios para a hipertensão e diabetes, não se compram mais. Você pode os pegar de graça nas farmácias populares, além de um monte de outros muito utilizados a custos baixíssimos.
  6. Se você tem, no entanto, uma doença mais séria, cujo tratamento é muito caro, saiba que para a maioria delas o governo federal disponibiliza a medicação, cujo custo, na maior parte das vezes supera muitas vezes seu salário.
  7. As vacinas para as doenças infecciosas mais comuns, não tem faltado, mas agora começamos a oferecer também aquelas para doenças mais sérias que só eram disponíveis em clínicas particulares, como meningites, pneumonias ou hepatites.
  8. É pouco?...Querem mais? Então vai:
  9. Na educação básica, garantimos escola completa para seus filhos, com merenda e tudo. Na Universidade, nunca se abriu tantas vagas nos cursos tecnológicos e nas Universidades Federais, justo nas regiões mais pobres e necessitadas. Se você não tem, no entanto, uma delas perto de você, saiba que com o FIES ou o PROUNI, mecanismos de financiamento para alunos carentes, seus filhos poderão estudar em escolas particulares e só pagarem depois de formado, com uma longa carência e juros baixos.
  10. Tem ainda o “Nossa casa, Nossa vida”, tem o Plano de Aceleração do Crescimento que com suas obras, dão emprego com carteira assinada a todos os brasileiros.
  11. Finalmente, estamos agora numa queda de braço com os bancos, para abaixar ainda mais os juros, o que vai ser o arranque que faltava para transformar muito de vocês em micro empreendedores, em donos de seus próprios narizes.
Muitas dessas boas notícias acontecem Brasil afora, mas não em Marília, pois os políticos que sempre ocuparam a Prefeitura estiveram muito pouco preocupados com o que poderia nos beneficiar a todos.
Recentemente, com a renúncia de mais um governante corrupto, envolvido em desvio de recurso da merenda escolar, entre outros, o Partido dos Trabalhadores assumiu a prefeitura de Marília, com o prefeito Ticiano Tófolli, com o compromisso de bem governá-la e saneá-la, e é o que estamos fazendo.
Ajude-nos, com seu apoio e seu voto, a trazer todas essas políticas que beneficiaram milhões de brasileiros, também para Marília, todos merecemos.
Filie-se ao PT.
Vote 13 nas próximas eleições. Vote 13.

Autor: Dr. Carlos Rodrigues. Médico, professor da FAMEMA e filiado ao PT.
Marília - SP

sábado, 12 de maio de 2012

O que é Ética?

A área da filosofia que estuda o comportamento humano

A palavra ética se origina do termo grego ethos, que significa "modo de ser", "caráter", "costume", "comportamento". De fato, a ética é o estudo desses aspectos do ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e de agir; por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e agirmos. Assim, pode-se dizer que a ética trata do que é "bom" e do que é "mau" para nós.
Bom e mau, ou melhor, Bem e Mal, entretanto, são valores que não apresentam, para o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações, várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A ética acompanha esse desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser ético no tempo presente. 
Considera também como esses valores se aplicam no relacionamento interpessoal, pois a noção de um modo correto de se comportar e posicionar na vida pressupõe que isso seja feito para que cada um conviva em harmonia com os outros. A ética, portanto, trata de convivência entre seres humanos na sociedade. Num sentido mais restrito, ela se restringe às relações pessoais de cada um. Num sentido mais amplo - já que ninguém vive numa pequena comunidade isolada -, ela se relaciona com a política - da cidade, do país e do mundo. Nesse sentido, ela é possivelmente a área mais prática da filosofia. 
Mas, antes de mais nada, qual o significado da palavra ética, em termos filosóficos? 
O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater apresenta uma resposta para essa questão em termos muito simples, num livro intituladoÉtica para meu filho, da Editora Martins Fontes. Como diz o título, ele escreveu com o intuito de explicar a questão para o seu filho adolescente. A seguir, você pode ler um breve trecho da resposta de Savater para a questão "o que é ética?". Esse é um excelente ponto de partida para você pensar no assunto: 
“Há ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas; outras, para adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma coisa; a maioria, para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. Se não sentirmos curiosidade nem necessidade de realizar esses estudos, poderemos prescindir deles tranqüilamente. Há uma infinidade de conhecimentos muito interessantes mas sem os quais podemos nos arranjar muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito não ter nem idéia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta satisfação a outras pessoas, embora essa ignorância nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até hoje. E você, se não me engano, conhece as regras do futebol mas é bem fraco em beisebol. Não tem maior importância, você desfruta os campeonatos mundiais, dispensa olimpicamente a liga americana e todo o mundo sai satisfeito.

O que eu quero dizer é que certas coisas a pessoa pode aprender ou não, conforme sua vontade. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica, marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas vive- se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são fundamentais para nossa vida. E preciso saber, por exemplo, que saltar de uma varanda do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos (perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice. Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá conseqüências muito desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos modos, mas há modos que não nos deixam viver.

Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convêm, assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não nos convêm se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver, deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é “bom”, pois nos cai bem; outras, em compensação, não nos convêm, caem-nos muito mal, e o que não nos convém dizemos que é “mau”. Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir – todos, sem exceção – pela compensação que nos traz.
Como afirmei antes, há coisas boas e más para a saúde: é necessário saber o que devemos comer, ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que a água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto, às vezes as coisas não são tão simples: certas drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem sensações agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns aspectos são boas, mas em outros são más: elas nos convêm e ao mesmo tempo não nos convêm. No terreno das relações humanas, essas ambigüidades ocorrem com maior freqüência ainda. A mentira é, em geral, algo mau, porque destrói a confiança na palavra – e todos nós precisamos falar para viver em sociedade – e provoca inimizade entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil ou benéfico mentir para obter alguma vantagem, ou até para fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer ao doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou deve-se enganá-lo para que ele viva suas últimas horas sem angústia? A mentira não nos convém, é má, mas às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros, como já dissemos, em geral é inconveniente, mas devemos consentir que violentem uma garota diante de nós sem interferir, sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro lado, quem sempre diz a verdade – doa a quem doer – costuma colher a antipatia de todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana Jones para salvar a garota agredida tem maior probabilidade de arrebentar a cabeça do que quem segue para casa assobiando. O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão!
[...]
Resumindo: ao contrário de outros seres, animados ou inanimados, nós homens podemos inventar e escolher, em parte, nossa forma de vida. Podemos optar pelo que nos parece bom, ou seja, conveniente para nós, em oposição ao que nos parece mau e inconveniente. Como podemos inventar e escolher, podemos nos enganar, o que não acontece com os castores, as abelhas e as formigas. De modo que parece prudente atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que nos permita acertar. Esse saber-viver, ou arte de viver, se você preferir, é o que se chama de ética.”

("Ética para meu filho", Fernando Savater, Editora Martins Fontes)

Antes de seguir adiante, porém, vale recordar o que foi dito no início deste texto: a Ética não serve de base somente às relações humanas mais próximas. Ela também trata das relações sociais dos homens, na medida em que alguns filósofos consideram a etica como a base do direito ou da justiça, isto é, das leis que regulam a convivência entre todos os membros de uma sociedade. 
O filósofo alemão Leibniz (1646-1716) considera que o direito e as leis decorrem de três preceitos morais básicos: 


  • Não prejudicar ninguém; 
  • Atribuir a cada um o que lhe é devido; 
  • Viver honestamente.
    Ou seja, a ética orienta também o ordenamento jurídico e/ou legal das nações. Por conseguinte, orienta também a política. Quando a política não é pautada pela ética ocorrem os escândalos e os crimes que os brasileiros presenciam a cada ano nos Poderes Executivo e Legislativo do nosso país.