terça-feira, 31 de maio de 2011

Amizade: o outro lado da filosofia


            Você lerá neste artigo um esboço de um projeto maior, que terá o objetivo de mostrar a importância do filosofar nos dias de hoje, por incrível que pareça. É senso comum ouvirmos que a filosofia e os filósofos não são desse mundo e que habitam lugares além do humano. A frase mais conhecida é: os filósofos vivem numa torre de marfim, que designaria um mundo ou atmosfera onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia. Como tal, tem uma conotação pejorativa, indicando uma desvinculação deliberada do mundo cotidiano.
            Pois bem. Isso não é verdade. Se não fosse os assuntos humanos a filosofia nem existiria. Sócrates andava pelas ruas de Atenas conversando com as pessoas abordando temas que tocavam diretamente a vida delas. Queria saber, conhecer e indagar sobre o que somos, como vivemos, o que é mais importante na vida, etc. Deste modo, o tipo de saber que buscava não era e nem estava distante das questões que colocamos a nós mesmos nos dias atuais. Na verdade, em Sócrates vemos uma prática do pensar que proporcionasse um tipo de sabedoria que conduzisse a algo prazeroso, porém sem desconsiderar o caráter dramático que é existir. E essa coisa boa pretendida poderia estar nas relações que travamos com os outros. Enfim, no diálogo que construímos com as pessoas, sem nenhum desmerecimento a alguém. É daí que emerge um novo modo de filosofar e, também, de viver.
            Filosofia é uma palavra grega originária de duas outras: philo (amizade, amor, respeito) e sóphos (saber, sabedoria). Vemos na história da filosofia um maior destaque ao sóphos, ao saber, ao conhecer teórico e contemplativo, daí a idéia de Torre de Marfim. Nem a idéia de sabedoria é evidenciada. Mas quero concluir com a primeira parte: philo, philia, amizade.
            É a amizade que nos aproxima mais ainda da realidade, dos assuntos humanos, pois nela revela-se a convivência, as olhadas, as escutas, os sabores que a vida na relação com o outro nos oferece. Se assim é, pensar deixar de ser algo meramente transcendente, mas que nos levaria a nos encostar nos odores, nas texturas, nas cores e nos paladares da existência, muitas vezes intraduzíveis e inenarráveis em palavras e conceitos. O filósofo apenas faz tentativas, apostas, aproximações, ao ponto de chegar a situações paradoxais e plenas de impasses, pois não pode e nem consegue compreender tudo sobre o que pensa.
            Olhando para nós hoje, falta-nos o tempo, a paciência e o cuidado de ir à praça pública, como Sócrates, para dialogar, pensar, fazer amigos, de maneira que modifique as nossas maneiras de ser e supere as individualidades, ou melhor, os individualismos que nos distancia e forma pessoas violentas, indiferentes, frias e quase desumanas.
            Assim, filosofar é também fazer amigos, é garantir um espaço público que nos transforme e nos abra para a convivência coletiva. A amizade, sem ignorar as tensões humanas, pode ser o caminho para novos modos de vida, para uma verdadeira vida filosófica. Filosofe!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A terceira dimensão da vida: riscos e perigos


É quase unânime entre os seres humanos querer dividir a vida e suas existências em dois lados: branco ou preto, bem ou mal, certo ou errado, etc. A finalidade é optar de maneira clara sobre o que devemos ou não devemos fazer. Sim ou não? É difícil responder categoricamente. Nós, os seres ditos humanos, precisamos compreender o caráter plural, diversificado, contraditório que é viver e existir. Heráclito, filósofo grego, que viveu antes de Sócrates, dizia que não tomamos banho duas vezes no mesmo rio. As águas mudam e nós mudamos também.
Portanto, há algo para além das margens dos rios. Se, naturalmente, são duas, que tal pensarmos numa terceira? Aquela que não é visível aos olhos. A tradição ocidental e cristã é marcada em dividir as coisas em duas partes: casal de animais na arca de Noé, Abel e Caim, Adão e Eva, etc. E hoje parece não ser diferente. Olhemos ao nosso redor e observemos o quanto agimos dessa maneira. Agimos dentro de uma normalidade e a partir de expectativas que queremos que se cumpram. Se não se cumprem, colocamos a culpa no acaso. E seguimos adiante até o próximo imprevisto.
De imprevistos em imprevistos deixamos de observar a terceira margem do rio, a terceira dimensão da vida. E onde está e quem é ela? Por incrível que pareça somos nós mesmos. Ao invés de nos fecharmos numa individualidade e num egoísmo enganador, podemos inventar, ser diferentes sempre. Somos dotados dessa capacidade. Como uma canoa no rio, podemos navegar de um lado a outro, realizando algo nunca feito antes.  
Um ser humano assim tem atitudes pouco comuns, atitudes surpreendentes, transgressão às regras sociais, atuação em acontecimentos não habituais, anormalidades físico-psíquicas. Solto solitariamente, o canoeiro, que somos nós, pode agir até com insensatez, porque daqui pouco já está enquadrado. Daí a necessidade de sair do normal posto e imposto. Temos que ser alguém que ouse desafiar as regras estabelecidas, que proponha o novo, o diferente, o inesperado.
Alegoricamente, o existir e o viver são como uma travessia em águas revoltas e até mesmo profundas, difíceis de compreender e decifrar.  Isso significa que a rivalidade – o um contra o outro, que dá dois - não é o melhor caminho. Um é pouco, dois é bom e três é ótimo, porque é a soma que soma sempre, que ultrapassa. É não ficar na mediocridade de um dualismo ressequido, semimorto e numa flagrante mesmice da vida comum.
No sertão da vida, o desafio é seguir pelas surpreendentes veredas e, como Riobaldo, reconhecer que “viver é muito perigoso” e que isso “carece de ter coragem”, como diagnostica Diadorim. Mas por que nos tornamos covardes e medrosos? Uma resposta pode estar em queremos fazer uma travessia serena, ter uma rota pré-traçada. No entanto, a vida parece ser uma travessia arriscada e fascinante, que por vezes amedronta, mas nos transporta para além de uma dualidade quase frustrante. Pensar num terceiro caminho, sem guias, mapas e roteiros, parece ser uma postura interessante nos dias hoje. Pelo menos como reflexão, é um bom começo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Depoimento da professora Amanda Gurgel

Hoje só quero compartilhar a explanação da professora Amanda Gurgel num evento com as autoridades. Percebe-se que a luta é longa mesmo e estou com ela.
O site é: http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A hipocrisia é humana

É muito difícil aceitar a falsidade, o esconde-esconde e o disfarce nas condutas das pessoas. Quem de nós já não experimentou atitudes dessa natureza em outras pessoas? É digno de indagação saber por que temos atitudes assim. Nascemos assim ou aprendemos com os outros? Essa é uma discussão que nos leva a refletir sobre o nosso caráter. Se assim é, devemos nos questionar sobre qual a possibilidade de ultrapassar esse tipo de comportamento. Não sabemos por onde começar.
Aristóteles nos ensina que somos formados de humores. A alegria, a tristeza, a indiferença e a melancolia são como que fluídos que percorrem o nosso corpo, repercutindo no nosso espírito.   As nossas ações e escolhas resultariam de um processo de equilíbrio entre esses humores. As paixões humanas e o nosso jeito de ser e de construir a nossa existência também são construídos a partir das nossas sensações e não vêm de uma instância transcendental. Isso significa que o homem  está diante de um mundo onde os valores e o sentido da vida parece que desapareceram. Todavia, ele tem a possibilidade de edificar situações agradáveis para se viver.
Neste sentido, podemos considerar inteligente o ser humano que em vez de desprezar este ou aquele semelhante é capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desvãos.
Sabemos que tudo no homem e no mundo se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terrível verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua substância vital, como dissera o escritor Nicolau Gogol. E tudo isso tem a ver com as paixões que nos constitui. Muitas vezes uma paixão, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indivíduo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em ínfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paixões humanas não têm conta, são tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, começam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.
Está plena de sorte aquela pessoa que, possuída de paixões, sabe e tem a paciência de escolher a mais nobre e, com isso, garantir o aumento de sua felicidade de hora a hora, de minuto a minuto,penetrando mais e mais no ilimitado paraíso da sua alma. Tarefa difícil? Sim. Existem paixões cuja escolha não depende do homem: nascem com ele e não há força bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, dotando-as de um poder de sedução que dura toda a vida, mas que podem contribuir misteriosamente para o bem do homem. No entanto, muitas vezes agimos em sentido contrário, mesmo conhecendo o que é o melhor. Ser hipócrita é uma dessas atitudes. Fingimento e simulação, expressões da hipocrisia, mostra o nosso caráter finito, incompleto e aberto.
            Nós somos dotados de carne, de osso e de hipocrisia, isto é, de uma característica intrínseca que denota impostura de virtudes e sentimentos onde não enxergamos em nós mesmos, mas percebemos de forma abundante em outrem. Somos bons juízes dos outros, mas temos dificuldades em nos olhar. Será vergonha? Sem pretender dar nenhuma lição de moral, fazer esse giro para dentro de nós mesmos é um desafio que nos atinge e nos provoca e que pode nos levar a um autoconhecimento e abrir a possibilidade de pelo menos não mentir para os outros e nem a si mesmo. É possível isso? Otimista, sim, iludido, não, mas é um bom exercício para darmos um sentido agradável à nossa existência. À tarefa!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Violência nas escolas

Não há dia que não encontremos notícias sobre atos e condutas violentas nas escolas. São de todas as ordens e tipos. Como personagens principais estão seres humanos. É díficil de acreditar, mas o lugar que deveria formar pessoas cidadãs tornou-se espaço para o preconceito, a discriminação e agressões verbais e físicas. Por isso que tenho defendido a presença de conteúdo sobre ética na formação dos professores, e isso na Universidade. Penso que assim daremos um passo importante para que os futuros professores compreendam melhor o universo humano, já cheio de contradições, heterogeneidades e dramaticidades. Quando há violência é porque está ausente a ética. As duas não combinam, porquanto a violência significa o desrespeito ao outro, que não pode ser tratado como objeto e uma mera coisa ou objeto, para satisfazer os nossos instintos mais primitivos e cruéis. Escreveremos mais sobre isso.

Só para ilustrar, veja essa notícia: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/05/16/escola-expulsa-11-alunos-por-bullying-em-votorantim-sp.jhtm

sábado, 14 de maio de 2011

Déficit de Atenção? Hiperatividade? O que é isso?

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e a indisciplina são na atualidade assuntos que aparecem com forte incidência no cotidiano escolar. Algumas condutas apresentadas pelas crianças, neste contexto, são vistas como indicativos de tal transtorno e isso vem contribuindo para que crianças ainda muito pequenas sejam encaminhadas pelos educadores aos profissionais da saúde, por apresentarem na escola comportamentos considerados indisciplinados, agitados e impulsivos. O livro que indico abaixo (pode ser feito download) tem como principal objetivo, discutir a relação entre indisciplina e o diagnóstico de TDAH, a partir da queixa do professor da educação infantil. Pretende ainda, analisar a postura dos educadores diante do processo de patologização no campo educacional, levando em conta a sociedade eugênica e disciplinar, que foi consolidada com o processo de higienização ocorrido no início do século XX, como também, construir uma reflexão crítica acerca das práticas sociais e educativas que ora se configuram, mediante a análise da educação contemporânea e do resgate histórico da escolarização no Brasil. A pesquisa se caracteriza como um estudo de caso qualitativo e as estratégias metodológicas empregadas para a coleta de dados incluíram a observação participante, entrevistas semiestruturadas, diário de campo e análise de documentos. Os resultados foram organizados em oito eixos temáticos e indicaram principalmente que os educadores apresentam dificuldades para estabelecer diferenças entre indisciplina e o TDAH e o que é normal e patológico, o que tem causado o aumento expressivo no número de encaminhamentos de crianças aos profissionais de saúde e a consequente patologização e medicalização da infância.

Saiba mais em: http://www.culturaacademica.com.br/titulo_view.asp?ID=97

A escravidão foi e é feita por humanos: assustador, não?


Nesta sexta-feira, 13 de maio, a abolição da escravatura no Brasil completou 123 anos. O dia foi marcado pela aprovação da Lei Áurea de 1888, assinada pela princesa Isabel. Contudo, as lutas dos negros pela liberdade, a pressão dos abolicionistas e a interferência internacional da Inglaterra foram os verdadeiros responsáveis pelo fim da escravidão no país.

Divulgação
Obra expõe questões que delineiam a própria história da humanidade
Obra expõe questões que delineiam a própria história da humanidade

Hoje, nos horrorizamos com a possibilidade de cecear a liberdade de outro ser humano, mas a prática é pré-histórica e muito comum desde os primórdios da humanidade. É virtualmente impossível --independente de suas origens-- que não exista um escravo, negro ou não, no rol de seus ancestrais.
A escravidão negra é relativamente recente em termos históricos. Antes disso, a cor da pele não era um fator decisivo. Os gregos e os romanos escravizavam os povos conquistados, muitos deles, de cabelo claro e olhos azuis.
Leia mais em:  http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/734339-bons-sentimentos-nao-bastam-diz-autor-sobre-a-escravidao.shtml