sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A educação para a ética: sem a desculpa do "não fui só eu"

Precisamos parar para pensar no valor de nossas ações. Distinguir melhor o que é certo do que é errado. E nos esforçar para conseguir agir de acordo com esse entendimento. Falo de ética.
São precárias as possibilidades do nosso tempo, já disse o advogado e poeta Paulo de Tarso. E, no cenário profundamente antiético, um disparate tem chamado a atenção. Para aquele momento em que, descoberto em roubalheiras, não dá mais para negar o óbvio, o submundo da política nacional tem utilizado uma péssima desculpa. Para abrandar a pena, quem sabe, se livrar dela, com cara coitado, inocente injustiçado, diz por aí, para quem quiser ouvir: "...mas não fui só eu".
O argumento não é novo. Ouvimos de crianças em formação. Na escola onde estudei, a resposta, por si só, sempre mereceu a censura não raro maior do que a falta praticada. A novidade é o uso oficial, descarado, pela politicagem.
A desculpa esfarrapada não vale para o Direito. De acordo com Código Penal, não ter sido o único a agir errado, não exclui a ilicitude do fato, como o "estado de necessidade" ou a "legítima defesa". Não retira seu caráter censurável, como acontece quando uma criança, incapaz de entender que o que fez é errado, "furta" um brinquedo do coleguinha (o Juiz não vai mandar prendê-la por isso!). Também não é algo que atenue a punição, como o é um "motivo de relevante valor social ou moral".
Roubar e falar, depois, que "não fui só eu" é sem-vergonhice, safadeza mesmo. Mais um sintoma muito sério do estado terminal ético que estamos vivendo.
Revela que o problema maior não é ser corrupto, sacanear os outros, desviar dinheiro público, embolsando verbas destinadas à saúde, educação, moradia, etc. O que provoca profunda indignação é se foder sozinho. Isso, sim, é muito injusto.
A prática cotidiana de desvios, dos pequenos aos graúdos – o que está às mãos, quando ninguém está olhando – se tornou nosso testemunho de Brasil. Não há dúvida, não foi o governo petralha que inventou a corrupção. A história mostra que coxinhas e militares ditadores são igualmente competentes nesse ofício. Um aprende com o outro. No fim, nos tornamos lenientes com a podridão. Não a descartamos quando nos convém. Somos, sim, contra o roubo que nos vitima. Somos contra os desvios praticados pelo PT ou pelo PSDB, a depender do lado que estamos. Mas, definitivamente, não somos contra a corrupção em si.
A pobreza ética atual, contudo, não significa que estamos incapacitados para uma experiência melhor. Não é um dado antropológico do brasileiro, feito uma segunda natureza irreversível.
O que nos faltam são boas lições de ética, o debate e aprendizado profundo sobre o que isso quer dizer. Se o mundo adulto está quase perdido, foquemos – os que não se perderam ainda – na geração que vem. A formação ética, aliás, constitui elemento central da educação básica, conforme as Diretrizes Curriculares Nacionais.
A ética não é um catálogo abstrato de bons comportamentos, aprendido numa aula de "educação moral e cívica" e, na prática, ignorado sistematicamente. Não se trata, também, de um conjunto de regras que cumprimos, sem saber muito bem o porquê, só porque Deus, o pai, o professor ou o líder espiritual ou político mandou. Ética tem a ver com deveres que cumprimos porque, para nós, isso é o certo, é o justo, ainda que o mundo insista em descumpri-los. São deveres que fazem parte de nós.
Isso é a autonomia, que define a vida democrática: a autodeterminação por normas que nos demos, que aprendemos, criticamos, melhoramos e concordamos. Por isso, seguimos, independentemente de que (e quem) estejam nos olhando. É a consciência do andar "direito", livre e responsável. Nos alerta, permanentemente, que a falta de respeito, a corrupção alheia não justifica que andemos errado também.

GUILHERME PEREZ CABRAL

Guilherme Perez Cabral é advogado especialista em direito educacional, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito.

sábado, 7 de março de 2015

Nós e a civilização

Embora desejado e comemorado por pais e familiares, o nascimento do bebê é revestido de um processo que afeta a todos, principalmente aquele que acaba de nascer. É dolorido e, diria, até mesmo traumático sair do útero materno e ter que enfrentar o mundo aqui fora. O ato de corte do cordão umbilical é para criança o primeiro momento mais doloroso de sua vida, a tal ponto que a primeira coisa que ela faz é chorar. Se antes a criança está ligada à mãe e não tinha que fazer nenhum esforço, agora é preciso começar a construir a sua identidade, a sua individualidade, enfim, o seu Eu. Ao nascer, o bebê ainda não é capaz de fazer a separação ou a distinção entre o Eu e o mundo exterior, algo que ele vai conseguindo realizar aos poucos, por meio de diversos estímulos. Ele começa percebendo que não consegue satisfazer sua vontade de mamar, por exemplo, sempre que deseja, pois essa satisfação não depende, agora, apenas dele. Podemos considerar esse momento, ou seja, a relação com o peito materno, algo que se acha fora dele e que somente por meio de uma ação – o grito, o choro, etc. – aparece, como o primeiro sinal de que a vida é uma permanente luta e busca de satisfação, que nem sempre conseguimos, gerando frustrações, dores e sofrimentos. Por outro lado, esse processo gera em nós, desde a tenra infância, a capacidade de distinguirmos e de isolarmos todas as fontes de desprazer, proporcionando reconhecimento e os primeiros passos de construção de nossa individualidade e, quiçá, de nossa liberdade. Todavia, essa liberdade que vai se ampliando com o crescimento, ao mesmo tempo deve sofrer restrições para o próprio bem da civilização e para que possamos viver em grupo, de forma a não ser confundida com a brutalidade e a arbitrariedade dos mais fortes sobre os mais fracos. Ou seja, todos os desejos dos indivíduos não podem prevalecer. Liberdade não é isso. Por exemplo, e de acordo com Freud, a civilização restringe a vida sexual do indivíduo, determinando que somente o sexo oposto se torne objeto de seu amor sexual, embora isso esteja mudando bastante hoje. À civilização não agrada a ideia do sexo apenas como fonte de prazer, mas sim como modo de reprodução, como quer a ética cristã. Assim, para o homem civilizado, o sexo deixa de ser fonte de sensações felizes, reduzindo sensivelmente seu papel na busca pela felicidade. Dessa forma, a civilização faz o possível para unir os membros da comunidade por meio da amizade, criando laços de identificação e fortalecendo vínculos. Para isso, é inevitável que a vida sexual seja reprimida e que a libido seja direcionada para um amor fraternal. Ao lado dos vínculos amorosos e fraternais que surgem entre os indivíduos, fortalecidos pela sociedade, há também o instinto agressivo, de destruição e hostilidade de um contra todos, o instinto de morte. Desse modo, para Freud, a evolução cultural apresenta a luta entre o instinto de vida e o instinto de morte, embate que corresponde ao conteúdo essencial da vida humana. Portanto, desde o nascimento a tarefa que nos cabe é prepararmo- nos para conviver no seio da civilização, o que pode gerar situações de mal estar e de insatisfação. Talvez tudo isso é o que dá sentido às nossas vidas. 


Também em: http://www.jornaldamanhamarilia.com.br/noticia/26538/Nos-e-a-civilizacao/

domingo, 5 de janeiro de 2014

Ah, a inveja!

Abertura da peça "Um Réquiem para Antonio"
DIB CARNEIRO NETO
(Uma noite qualquer do ano de 1825, ano da morte do compositor italiano Antonio Salieri. Um quarto amplo. Quando a peça começa, Salieri está falando sozinho, divagando de forma meio débil e delirante. Wolfgang Amadeus Mozart está ao piano e sua presença ainda não é percebida por Salieri. Toda a peça se passa dentro da cabeça de Antonio Salieri.)
ANTONIO SALIERI (velho, abatido, dirigindo-se até a sua cama para deitar, faz um solilóquio inicial) "" Ah, a inveja... Brota de que órgão do nosso corpo esse sentimento viscoso e gosmento? Não creio que o mais abnegado dos praticantes da ciência e da medicina saiba nos responder ao certo. O coração já é por demais bombeado por todo tipo de artérias emaranhadas e amores difíceis... Prefiro acreditar que bastaria um mero jato de sangue bom para expulsar dali qualquer cancro modorrento como a inveja... O fígado? Também não. O fígado é fábrica de bile: vive ocupado em depurar a mais variada gama de líquidos diabólicos que nos inebriam desde a mais tenra idade. Que ilusão infeliz de que nos salvará de nossas ameaças mais etílicas... O estômago? Não: a inveja, ácida, não se dissolve nem com suco gástrico. É tão corrosiva como se fosse abrindo crateras estéreis na superfície da vida, uma estrada esburacada de insatisfação e de incompletude... Pulmões? Talvez, pois me falta ar toda vez que cobiço o que não tenho... Intestino? Pode ser também, já que a inveja, delgada, se enrosca e se enovela em mim, cada vez mais fétida... Ao menos se eu não tivesse nem olhos nem ouvidos, para ficar pouco exposto a esse sentimento torpe... Quem sabe se eu mesmo me arrancar as pupilas agora mesmo e sangrar meus tímpanos, como nos arroubos dos personagens míticos da velha Grécia, sempre guiados pelas forças da natureza... Mas cegos e surdos não invejam justamente os que têm olhos e ouvidos? Aaaaaaaai de mim! Ah, a inveja que me apodrece os ossos... Se fosse concreta, ela teria o gosto e a consistência daquelas poções fumegantes de bruxas encarquilhadas... Um caldeirão no fogo, unhas de felino, asas de morcego, ranho de hipopótamo, merda de elefante... Oh, deuses do além, preciso com urgência de três bruxas de rostos desfigurados e de malignas imprecações! Venham sem demora! Venham, moiras! Venham, górgonas! Triturem meu cérebro em vida, oh, vermes insensíveis, para que meus pensamentos fiquem ocos de todo conteúdo. Para que eu não perca mais um só minuto tentando compreender e compreender e compreender o que parece não comportar nenhuma explicação plausível... Querer ser o outro. Não há melhor exemplo do autoengano que assola a humanidade. Pois se Deus assim nos fez, Deus assim nos quer. Ou não? Somos o Seu' exército de soldadinhos de chumbo, cada qual diferente do outro: nunca dois serão iguais, para deleite de um Deus cruel que nos cria díspares justamente para que desejemos o que não temos... Pois é isso! É de Deus que brota a inveja! É desse Deus que implantam dentro de nós, desse carrasco que instalam em nossas entranhas, é Dele que nasce a inveja! E, por ironia do criador, é para Ele próprio que ela se volta, pois quem é que não inveja Deus?! Mozart é Deus, estás me ouvindo, Wolfgang? Antonio Salieri quer ser o Deus Mozart, estás me ouvindo ainda, Wolfgang Amadeus?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A origem mundo dos Black Blocs


Abaixo, uma esclarecedora entrevista que Francis Dupuis-Déri, da Universidade de Québec em Montreal concedeu ao jornalista Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual. O entrevistado é autor do livro Les Black Blocs e Who´s Afraid of the Blac Blocs? Anarchy in Action Around the Workd.
  
O que é o black bloc? Um movimento? Uma tática? Uma performance?
 Black bloc é simplesmente uma tática, uma maneira de se organizar dentro de uma manifestação. Consiste em se vestir de preto para garantir um certo anonimato. Pelo que conheço, a maioria dos black blocs desfilam com calma nas manifestações. A simples presença deles forma, de certa maneira, uma bandeira preta, símbolo do anarquismo. Vale lembrar que os sindicatos fazem coisa semelhante quando se manifestam: eles se agrupam atrás de faixas, com bandeiras, para que todos os seus membros andem juntos. Nesse sentido, com o black bloc é a mesma coisa.
 Quando, como, onde e por que surgiram os black blocs?
 O black bloc como forma de ação – ou seja estar vestido de preto e mascarado – surgiu na Alemanha Ocidental por volta de 1980. A tática apareceu dentro do movimento “Autonomen”, que organizava centenas de ocupações políticas e lutava contra a energia nuclear, a guerra e os neonazistas. Os black blocs alemães defendiam as ocupações de prédios contra as expulsões da polícia e se confrontavam com os neonazistas nas ruas. A estratégia black bloc se propagou no Ocidente através da música anarcopunk e de grupos antirracismo. A ampla cobertura midiática das manifestações antiglobalização de Seattle, nos Estados Unidos, em 1999, também contribuiu para a difusão da tática, assim como a internet o faz hoje. A questão, aqui, é que o black bloc é facilmente reproduzível.
 O que justifica o surgimento dos black blocs em países da Europa e nos Estados Unidos, onde as necessidades básicas da maioria dos cidadãos, ao contrário do que ocorre no Brasil, já estão atendidas?
 No Ocidente, os black blocs se mobilizam há pelo menos 15 anos durante grandes encontros do G8, G20, FMI etc. E dentro do chamado movimento altermundialista (famoso pelo slogan “outro mundo é possível”, cunhado pelo Fórum Social Mundial). Muitos black blocs consideram que a ideologia neoliberal e o capitalismo são responsáveis pelas desigualdades, injustiças e a destruição do planeta. Além disso, essas grandes cúpulas internacionais demonstram que apenas uma ínfima parcela da elite controla os negócios globais e que, consequentemente, existe um sério déficit democrático no mundo. Por fim, a repressão aos movimentos sociais no Ocidente cresceu nos últimos 15 anos. Em países como a Grécia, a situação econômica é catastrófica. Por essas e outras razões, as pessoas estão revoltadas e consideram que já não basta se manifestar pacificamente: é preciso perturbar e reagir quando a polícia ataca o povo.
 Que ideologia norteia a atuação dos black blocs?
 Não existe “um” black bloc, mas sim “os” black blocs, que são distintos em cada manifestação. De maneira geral, quem mais participa desses grupos são anarquistas, anticapitalistas, feministas radicais e ecologistas. Segundo minhas pesquisas, os black blocs são geralmente compostos por indivíduos com uma forte consciência política.
 Os black blocs são de esquerda ou de direita? É possível defini-los nestes termos?
 Principalmente de esquerda e sobretudo de extrema-esquerda. Mas, como o black bloc é reconhecido principalmente pela aparência, pela roupa preta, fica fácil imitá-lo. Já há alguns anos, na Alemanha, país onde surgiu a tática, neonazistas organizam black blocs dentro de suas próprias manifestações. É uma apropriação, uma deturpação.
 É possível fazer algum paralelo entre os black blocs e o ludismo do século 19?
 De certa maneira, podemos sim fazer um paralelo. Muitos pensam que os ludistas, que destruíam as maquinas têxteis na Inglaterra no século 19, eram apenas românticos contrários ao progresso. Mas, no fundo, eles defendiam um modo de vida comunitário contra o desenvolvimento tecnológico e econômico que mais tarde viria a perturbar profundamente suas vidas. Tudo em nome do lucro de alguns poucos privilegiados. Certamente, essa ideia existe dentro dos black blocs. Há muitos ecologistas radicais que aderem à tática, e suas ações diretas são motivadas pela convicção de que o capitalismo, o desenvolvimento desmesurado e o consumismo vão destruir a vida no planeta.
 Por que os black blocs adotaram o vandalismo como estratégia?
 Muitos movimentos sociais contam com grupos mais combativos. Isso se aplica, por exemplo, para os movimentos indígenas e alguns grupos sindicais. É importante lembrar que os black blocs não são os únicos que procuram destruir bancos. Durante a crise de 2001, na Argentina, lembro de ter visto mulheres da classe média, de aproximadamente 50 anos, atacarem vitrines de bancos com martelos, porque elas acabavam de perder todas suas economias. Era uma maneira significativa de expressar sua revolta. Ao longo dos séculos, muitas vezes, pessoas arruinadas por dívidas pesadas queimaram bancos e tribunais – onde se mantinha o registro das dívidas. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos depois da independência. Como outras pessoas, os black blocs pensam que é preciso mais que manifestações calmas e pacíficas para realmente perturbar a ordem das coisas e expressar uma revolta legítima contra instituições que destroem suas vidas. Os bancos são uma delas.
 Em que sentido atentar contra símbolos do capitalismo (bancos, lojas de automóveis etc.) pode ajudar a superar a ordem capitalista?
 Algumas pessoas se manifestam com um cartaz “Foda-se Capitalismo!”. Isso não detém o capitalismo, mas é uma mensagem, uma crítica pública. A ação do black bloc é a mesma coisa, só que mais radical, mais combativa. O alvo é a mensagem. Os críticos dos black blocs frequentemente relatam danos e quebradeiras contra pequenos comércios e usam esse fato para qualificar a tática como violência gratuita e apolítica. Ora, segundo minhas pesquisas, 99% dos alvos têm um significado claramente político: bancos, grandes empresas, grupos privados de mídia, edifícios do governo e da polícia. Mesmo quando um pequeno comercio é alvo, é preciso ser paciente e buscar alguma explicação. Frequentemente, nas semanas seguintes, ficamos sabendo que, por exemplo, era uma represália contra comerciantes que colaboraram com a polícia durante uma manifestação, ou pequenos empresários que costumam a maltratar seus funcionários.
 No Brasil, os black blocs apareceram com mais força durante as manifestações de junho. Tanto à esquerda quanto à direita, poucas são as vozes que contestam publicamente essa desumanização dos black blocs. Esse processo de condenação social também foi visto em outros países onde os black blocs atuam há mais tempo? Pode citar alguns exemplos?
 No Ocidente, a repressão da polícia contra movimentos sociais progressistas vem crescendo nos últimos 15 anos. Durante a greve estudantil de 2012, no Canadá, mais de 3.500 pessoas foram presas apenas na cidade de Québec. (Québec tem apenas 7 milhões de habitantes e a greve durou 10 meses) A maioria das prisões ocorreu durante manifestações pacíficas. Ao todo, ao longo de toda a greve, apenas algumas vitrines foram quebradas. Nada que justifique tamanha repressão.
Na cidade de Montreal e na cidade de Québec, a legislação municipal também foi modificada para proibir máscaras e obrigar os manifestantes a fornecer antecipadamente o trajeto do protesto. Um militante fantasiado de panda foi preso e teve a cabeça de sua fantasia arrancada. Em um dos meus livros, À qui la rue? Répression policière et mouvements sociaux (A quem pertence a rua? Repressão policial e movimentos sociais, em tradução livre), contabilizei mais de 10 mil detenções contra o movimento altermundialista desde asmanifestações de Seattle, nos Estados Unidos, em 1999. As leis antiterroristas editadas após 11 de setembro de 2001 são usadas para criminalizar todo tipo de dissidência. Os conflitos políticos se polarizam e o Estado age de maneira burra, através da repressão policial e da detenção dos dissidentes.
 Como a esquerda (movimentos sociais, partidos políticos e intelectuais) costuma reagir à aparição dos black blocs?
 Os black blocs parecem não ter muitos amigos. Muitas vezes, os porta-vozes das organizações progressistas, como sindicatos, denunciam os black blocs, dizendo que eles se “infiltram” em “suas” manifestações e que eles só querem “quebrar tudo”. Pessoas de esquerda justificam dessa maneira a repressão e a criminalização da dissidência. Denunciando a “violência”, eles esperem ganhar uma imagem respeitável. Vimos isso em todas as manifestações do movimento altermundialista, desde Seattle, em 1999, até o encontro do G20 em Toronto, no Canadá, em 2010. O problema é que essas forças progressistas praticamente não acumulam ganhos nos últimos 15 anos. Pior, é a direita quem está na ofensiva em todas as partes, e a esquerda recua – pelo menos na Europa e nos Estados Unidos.
 A esquerda mais institucional e “respeitável” frequentemente precisa da turbulência e da combatividade da extrema-esquerda para suas manobras no campo político. Na Itália, um grupo contra a construção de um trem de alta velocidade (Movimento No TAV) aplaudiu em Turim um porta-voz que declarou “somos todos black blocs”. No Brasil, o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ) declarou recentemente apoio e solidariedade aos black blocs. Vemos regularmente testemunhos de manifestantes que não participam dos black blocs, mas que concordam com a tática e inclusive já foram protegidos por eles dos ataques da polícia. Vimos isso em Seattle e no Québec durante a greve de 2012, assim como em outros lugares. Muitos sabem também que os black blocs ilustram um elemento importante dos movimentos de contestação. Para alguns, os black blocs são uma “imagem do futuro”.
 Tradução: Delphine Lacroix


terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pluralidade humana e o professor na sala de aula


Quando um professor entra numa sala de aula geralmente ele parte da ideia de que ela é composta por um grupo homogêneo de pessoas. O mesmo faz os alunos em relação aos seus professores: haveria uma identidade entre eles. Essa uniformização das mais diversas identidades e jeitos de ser tem causado, a meu ver, situações conflitantes e desagradáveis na escola.
Se isso não bastasse, o aluno e o professor vão para escola com uma concepção e uma postura que também provoca algumas desconfianças, mas que, no entanto, passam despercebidas: que somos seres racionais. E isso é tudo. Queremos pensar em outra direção: aluno e professor não estão ali, na sala de aula, apenas para obter, construir, elaborar e buscar o conhecimento. Eles querem e desejam mais do que isso. Quando igualamos o não-igual corremos o risco de cometer atrocidades. Aquele desejo de universalidade e de homogeneidade, que está base de nossas práticas pedagógicas, pode encontrar aqui os seus limites. Enfim, não somos apenas um ser que pensa, em que o intelecto torna-se a única instância para se edificar um projeto e uma práxis educativa.
Seres plurais, inacabados e finitos que somos, vivemos e convivemos na companhia dos outros, que são diferentes para mim tal como eu sou diferente para eles. Na sala de aula, a busca da verdade deve combinar-se também com a busca da felicidade, da justiça e do belo. Do ponto de vista das relações que se estabelcem na escola, é preciso levar em conta a pluralidade e a singularidade que habita aquele espaço. Somos seres livres e abertos a experiências existenciais, seja individuais ou coletivas, irredutíveis a um único aspecto. Por isso sugiro aos professores que para o bem de sua mente e de seu corpo, não se angustiem e nem se estressem, mas aprenda a lidar com o imprevisível, incluindo o mundo sensível e passional em suas práxis pedagógica de forma a contribuir para um processo educativo mais amplo e integral.
Na sala de aula se manifesta as mais diversas perspectivas e expectativas que alunos e professores são portadores; é um dos lugares onde a pluralidade humana se exprime. Alunos e professores não são apenas sujeitos dotados da capacidade de conhecer, mas são pessoas que agem e sofrem os efeitos da sua ação na sua relação com os outros, constituindo, assim, as suas existências. O que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. Qualquer ação pedagógica deve levar isso em consideração, caso não queira viver a experiência da frustração, como às vezes ocorre.

Romper com a uniformização e com a visão universalizante da vida exige uma abertura ao outro em sua singularidade e não há espaço mais apropriado para isso do que a sala de aula. Com isso queremos dizer que não há o ser humano, mas seres humanos, ou nas palavras de Aristóteles, o humano se manifesta de vários modos, o que exige do professor redescrever a sua postura ao entrar em contato com seus alunos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sobre o tempo e a velhice, de Antônio Ozaí da Silva


“Matamos o tempo; o tempo nos enterra”.
Machado de Assis
Estes dias assisti ao filme Sombras de Goya[1] e lembrei-me de um texto que li, por coincidência, há cerca de um ano. Trata-se de “O sono da razão produz monstros”, escrito por Jorge Coli.[2] Neste, o autor refere-se a temas que me fazem pensar muito: o tempo e a velhice. Talvez porque o meu vizinho tenha completado 80 anos – e em plena forma; ou porque medito sobre o meu avô com os seus 107 – embora numa situação praticamente vegetativa; talvez porque nesse período fico assim… pensativo!; quem sabe seja a proximidade do meu cinqüentenário.
Seja como for, na obra do pintor Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) há um quadro que representa mulheres idosas diante do espelho. É uma das faces da velhice que, muitas vezes, não gostamos de ver, mas que mostra como o tempo deixa suas marcas. Como nota Coli, “toda beleza fenece, o vigor da juventude é transitório, loucos aqueles, como a velha no espelho, que desconhecem o caráter transitório de si mesmo”.[3]

Às vezes, a vaidade nos cega diante dessa realidade irrefutável: o tempo passa, ou, como dizia o poeta, “O tempo não pára”. Dialeticamente, como diriam meus amigos marxistas, a vida traz em si a própria destruição; começamos a morrer assim que nascemos e quanto mais nos apegamos à vida, mas ela foge de nós. Eis uma contradição insuperável. Daí o apego humano aos delírios da imortalidade e a crença em promessas como a ressurreição, vida após a morte, etc.
Talvez o tempo seja como Saturno, o deus da mitologia romana representado por Goya, sobre o qual observou Coli: “A imagem do tempo capaz de revelar a verdade torna-se para ele [Goya] a entidade obsessiva e impiedosa que reduz o homem ao efêmero de si mesmo. Passa-se da experiência física a uma consciência propriamente ontológica do estar no mundo: numa das decorações para a sua Quinta, o velho tempo transforma-se num Saturno, num deus Cronos monstruoso, que devora seus próprios filhos. O tempo é aquele que engendra, o pai absoluto que traz à existência para depois destruir sua prole”. [4]

Outro dia vi um cachorro morto na rua e, instintivamente, virei o rosto. Não queria olhá-lo. A cena me perturbava. A imagem não saía da mente. Por que? Se pensarmos bem, do ponto de vista da matéria, isto é, da certeza de que fenecemos como qualquer outro corpo vivo, o que nos diferencia de um cão ou outro animal? O fato de termos consciência? A nossa alma? A crença em algo transcendental e noutra esfera para onde irá a nossa alma? É preciso, porém, acreditar!
Permanece o dilema humano e a dificuldade em aceitar que não é eterno, que a vida é finita. O ser humano é o único animal que tem consciência da morte e, portanto, é admirável a sua arrogância perante o inexorável. Alguns até se recusam a falar e pensar sobre isso; outros agem como se a juventude não sucumbisse ao tempo. Esquecem, no entanto, que morremos a cada segundo que vivemos.
A depender das circunstâncias, talvez seja melhor não chegar à velhice, não se ver no espelho nem vegetar. Vale a pena continuar vivendo quando perdemos o domínio mais elementar sobre o nosso corpo? Não podemos fugir à morte, mas é possível transformar o tempo em nosso amigo? Não advogo o suicídio nem recrimino a velhice. Esta tem algo de belo e positivo. Há outros quadros que podem ser pintados além das representações do grande pintor espanhol. Em qualquer caso, o tempo deixa marcas indeléveis em nosso rosto, em nosso corpo. Ele não nos perdoará e cumpriremos o ciclo da vida. Melhor nos resignarmos a esta verdade absoluta.
Gostaria de chegar aos 80 anos e curtir a idade com a energia e o orgulho do seu Joaquim; mas não desejo chegar aos 107 se isto significar viver como o seu João, meu avô.
__________
[1] Sombras de Goya, Espanha, 2006. Direção: Milos Forman.[2] In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, p. 301-312.[3] Id, p. 307.[4] Idem.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

REFLEXÕES SOBRE ÉTICA E EDUCAÇÃO



A ética tornou-se  na atualidade um assunto de profundos debates, repercutindo em amplas esferas da sociedade. Observamos que no campo da educação, em particular,  o tema dos valores tem ocupado uma grande parte das discussões e das propostas, trazendo-nos algumas questões que pretendem compreender os anseios e as expectativas que parcela significativa dos personagens – alunos e professores - querem ver realizadas ou respondidas na sala de aula.
Haveria um desejo no mundo contemporâneo em fazer brotar elementos propícios e respostas que possam colaborar nas decisões e no sentido que atribuímos às nossas formas de comportamento e de vida, enfim, à nossa própria existência. Por isso, muito se tem falado, escrito e debatido sobre ética e sua articulação com a educação.
Os desafios colocados hoje à humanidade demandam de cada um nós uma postura firme e comprometida, de tal maneira que se busque efetivamente responder às tensões e às crises herdadas do século passado. Porém, num outro aspecto dessa mesma crise, quanto mais conhecemos, quanto mais ampliamos e conquistamos novos saberes e construímos novos valores, adotando novas formas de conduta e de pensar, mais nos sentimos incomodados e insatisfeitos. A sensação é de desconforto e insegurança – e até de ignorância. Ninguém tem mais certeza e segurança sobre quais valores devem ser garantidos.
Se considerarmos a ética como uma possibilidade de aprofundar e compreender as inquietações que habitam o nosso tempo, a educação pode ser tomada como um campo privilegiado e fértil para reflexões dessa natureza. Como refletir a respeito de ética e moral, cidadania, direito e amizade a partir de um diagnóstico que indica a impossibilidade de justificarmos universalmente os valores que tomamos como parâmetros para nossas condutas? Se um dos objetivos da educação é garantir a formação ético-moral, que significado ainda poder ter o direito, a amizade, a justiça e a cidadania, num mundo cujo próprio ideal de humanidade é colocado em questão?
As ideias do filósofo alemão Immanuel Kant é bastante significativa sobre essas questões. Defendendo a ideia de que a perfeição da natureza humana é a finalidade que cada geração deve deixar como herança para as gerações futuras, considera que a educação deve ser de tal maneira que possa proporcionar o aperfeiçoamento da humanidade. Segundo ele, é entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre melhor desenvolvida e aprimorada pela educação, abrindo a possibilidade para uma futura felicidade da espécie humana, tendo em consideração que  a natureza dispôs nos homens sementes de humanidade e nestas estão contidas o destino do homem. Cabe à educação cultivar essas sementes para que se desenvolvam bem e dê bons frutos.
Assim, o melhoramento da espécie humana, o seu aperfeiçoamento, pela educação, em direção ao bem, depende, para se desenvolver, do próprio homem. Como diz Kant, as disposições para o bem não estão prontas, não se desenvolvem por si mesmas - a felicidade ou a infelicidade humana dependem do próprio homem, cabe a ele desenvolvê-la. A educação, portanto, é o maior e o mais árduo problema que pode ser proposto aos homens.
Essa responsabilidade da educação, atribuída ao homem, decorre das conseqüências maléficas ou benéficas que podem provocar na vida das gerações futuras. Esta dimensão ética do processo educativo significa que os conhecimentos produzidos pela espécie humana devem ter como finalidade não apenas garantir como também desenvolver as disposições naturais do homem para a razão e para a liberdade.
         Enfim, a educação deve ter como princípio superar o estado presente. De nada valeria educar permanecendo nos limites das condutas do homem atual.  É preciso vislumbrar um estado melhor de vida para a humanidade, no futuro. Se o mundo é corrupto ou mentiroso, necessita-se de uma prática educativa que ultrapasse esse estado de coisas.