terça-feira, 7 de maio de 2013

Em vez de se fazer política, políticos - pelo menos, uma parcela deles - fazem apenas "negócios"


João Sayad: Taxonomia dos ratos
Face a problemas insuperáveis, a ciência classifica.
Médicos classificam tumores em benignos, malignos, perversos ou dóceis. Zoólogos falam de baratas pretas, marrons, voadoras, cascudas ou molengas; ratos de rabo longo, camundongos, ratazanas, roedores urbanos e rurais. O método se chama taxonomia.
Se é impossível resolver, extinguir ou explicar, classificamos. O taxonomista é, antes de tudo, um resignado.
Convido o leitor a iniciar uma taxonomia da corrupção.
Existe a corrupção do fiscal, do policial, do oficial de justiça, do perito avaliador, do inspetor da prefeitura, do parlamentar. Esta é a malversação do tipo público. E a corrupção do setor privado, obviamente, faz par a cada uma das classes de corrupção do setor público.
Mas gêneros, espécies e subespécies ainda não foram bem definidos.
Contribuo, então, com uma classificação que, mesmo modesta, pode aumentar a produtividade dos caçadores de ratos, fabricantes de inseticidas e ratoeiras, auditores, corregedores, promotores, funcionários do Ministério Público, jornalistas e até gente do terceiro setor que ainda se incomode com o tema.
Dividiria a corrupção do setor público em dois grandes grupos.
A grande corrupção (chamemos de corrupção "a la grande") está associada a investimentos públicos enormes. É o mundo das negociatas impressionantes, das concessões viciadas, das toneladas de cimento.
O caso famoso do prédio do Tribunal Regional do Trabalho, na Barra Funda, em São Paulo, é bom exemplo. O prédio está lá. É grande, espaçoso e funcional. Pode-se dizer até que é bonito. Custou 160 milhões de reais a mais do que deveria ter custado. Mas está lá.
O culpado pelo desvio foi morar em Miami, comprou um monte de carros esporte e voltou preso. Quem ficou aqui acabou devolvendo em prestações o superfaturamento praticado. A relação custo-benefício, no final das contas, foi positiva: houve custo excessivo, mas o prédio, repita-se, ficou pronto.
As características desse tipo de corrupção são duas: primeiro, o bem público foi produzido e entregue. Depois, o valor subtraído ficou conhecido e teve limite. Acabou a obra, acabou o roubo. E os culpados mudam de ramo e nos deixam em paz, se não forem presos.
Existe também a corrupção pequena (de custeio, diriam os economistas): contrata parentes, compra papel higiênico superfaturado, orienta a criação de empresas de fachada para prestarem serviços, cria cooperativas para pagar funcionários terceirizados, faz acordo de "kick back" com os fornecedores e, principalmente, avacalha, paralisa, lasseia e termina por matar a organização que administra.
Esse tipo de corrupto "petit cash" instala-se em organizações públicas menores, nas quais pode atender a fisiologia e necessidades de financiamento eleitoral sem ser percebido de imediato. funcionários de carreira; o segredo e a confidencialidade passam a ser as regras na organização.
E os serviços públicos que seriam oferecidos vão perdendo qualidade, tornam-se irrelevantes. Os funcionários acabam deprimidos, pois não têm o que fazer, ganham mal e sabem que o "andar de cima" ganha bem por dentro e por fora. O resultado é o apodrecimento da organização até a morte definitiva.
O custo desse tipo de corrupção parece pequeno. Mas um desvio de 1 milhão por ano por tempo indefinido tem um valor atual elevado. Se a taxa de juros de desconto for de 7,5% ao ano, 1 milhão por ano custa ao contribuinte mais de 10 milhões.
Sangra a organização anos a fio, faz favores a seus superiores e enche-se de queijo de maneira paulatina e continuada. A alta administração do órgão se afasta e se esconde dos Pior ainda, a relação custo-benefício é infinita: custa 10 milhões e não oferece nenhum benefício público. Não há adição, só subtração. É dez dividido por zero.
Não há um prédio, não há nada concreto no fim da linha, só há ruínas e desmoralização. E a sociedade fica sem o serviço público direito, enquanto centenas de funcionários passam anos em meio ao lixo.
Finalmente, esse tipo de corrupção tem um agravante.
Como é obtido em suaves prestações, não permite ao parasita fugir para outro país, ir morar na praia ou dedicar-se à criação de cavalos. O parasita permanece grudado na instituição hospedeira da qual suga o sustento por longos períodos, até que mudem os partidos no governo.
É uma corrupção mixa, que não produz fóruns, estradas ou pontes.
Proponho, a quem tiver paciência de continuar o trabalho de classificação, chamá-la de "corrupção brega". Minha vontade de prosseguir na tarefa acabou. Estou indignado.
JOÃO SAYAD, 67, doutor em economia pela Universidade Yale (EUA), é presidente da Fundação Padre Anchieta

A morte não é nada para nós


Quando o nosso corpo fica doente uma das primeiras medidas que tomamos é procurar um médico ou providenciar um remédio para que o mal seja extirpado. O prazer, a tranquilidade da alma e a ausência de perturbação são desejos que queremos ver realizados.
Essa paz espiritual e a experiência de viver sem dor e sofrimento já se encontra entre os gregos, em especial na filosofia de Epicuro(342-217 a. C.). Segundo ele, o ponto de partida de um modo de vida prazeroso está em não sentir fome, nem sede e nem frio. A felicidade de cada indivíduo encontra-se num exercício permanente em que buscamos não os prazeres momentâneos, doces e efêmeros. É por procurar unicamente esses prazeres que os homens encontram a insatisfação e a dor, porquanto esses prazeres são insaciáveis e, tendo chegado a certo grau de intensidade, tornam a trazer sofrimentos.
A felicidade suficiente, perfeita e plena e o prazer estável são escolhas que nós podemos fazer, ao invés de sermos torturados por desejos vazios: a riqueza, a luxúria, a dominação. Assim, devemos optar pelos desejos naturais e necessários, que são aqueles que levam à satisfação de nos libertarmo de uma dor e que correspondem às necessidades elementares, às exigências vitais. Diz Epicuro: “Graças sejam rendidas à bem-aventurada Natureza que fez com que as coisas necessárias sejam fáceis de alcançar e que as coisas difíceis de alcançar não sejam necessárias”.
Para aprofundar e melhor esclarecer sua posição, Epicuro formula o que ele chama de “quádruplo remédio”: 1. Os deuses não são feitos para temer; 2. A morte não é feita para amedrontrar; 3. O bem não é fácil de conquistar e 4. Nem o mal de suportar.
De fato, quem quiser viver bem não deveria se pré-ocupar com a morte. Seria perturbador a nós se ficarmos organizando a nossa vida a partir do fim dela, pois enquanto cada um de nós existir a morte não existe e quando ela existir nós já não existimos mais. Enfim, a morte não é nada para nós, ou seja, nós nos bastamos as nós mesmos e quando a morte sobrevir nós não somos mais nós mesmos.
Deste modo, sumprimindo a morte de nossas preocupações, devemos nos ocupar com a vida. A satisfação de nossos desejos vem, portanto, pela prática da disciplina que nos leva saber contentar-se com o que é fácil de alcançar, com o que satisfaz as necessidades fundamentais do ser, e renunciar ao que é supérfluo. Fórmula simples, mas que não deixa de levar a uma alteração radical da vida: contentar-se com comidas simples, roupas simples, renunciar às riquezas, às honras, enfim, viver retirado.
É verdade que essa vida filosófica parece impossível nos dias atuais, mas podemos a partir dela olhar e observar que sentido estamos dando às nossas existências hoje. Será que vale o sacríficio amendrontarmo-nos com a morte, tornando-nos escravos de desejos insaciáveis que nos leva ao sofrimento e à dor? A pensar!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Filosofia e felicidade: O que é ser feliz segundo os grandes filósofos do passado e do presente


O que é felicidade? Provavelmente, cada pessoa que resolver responder a esta pergunta apresentará uma resposta própria, pois a felicidade, num certo sentido, é algo individual, pessoal e intransferível. Por outro lado, há uma ideia de felicidade que pertence ao senso comum e é compartilhada pela esmagadora maioria das pessoas: felicidade é ter saúde, amor, dinheiro suficiente, etc. Além disso, a ideia de felicidade não é uma coisa recente. Com certeza, ela acompanha o ser humano há muito tempo e faz parte de sua história.
Sendo assim, é possível traçar a evolução histórica dessa ideia, se nos debruçarmos sobre a disciplina que sempre se dedicou a investigar nossas ideias, de modo a defini-las e esclarecê-las: a filosofia. Na verdade, a ideia de felicidade tem grande importância para a origem da filosofia. Ela faz parte das primeiras reflexões filosóficas sobre ética, que foram elaboradas na Grécia antiga. Vamos, então, acompanhar a evolução histórica dessa ideia fazendo uma viagem pela história da filosofia.
A referência filosófica mais antiga de que se dispõe sobre o tema é um fragmento de um texto de Tales de Mileto, que viveu entre as últimas décadas do século 7 a.C. e a primeira metade do século 6 a.C. Segundo ele, é feliz “quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”. Vale atentar para a expressão “boa sorte”, pois disso dependia a felicidade na visão dos gregos mais antigos.
Bom demônio
Em grego, felicidade se diz “eudaimonia”, palavra que é composta do prefixo “eu”, que significa “bom”, e de “daimon”, “demônio”, que, para os gregos, é uma espécie de semi-deus ou de gênio, que acompanhava os seres humanos. Ser feliz era dispor de um “bom demônio”, o que estava relacionado à sorte de cada um. Quem tivesse um “mau demônio” era fatalmente infeliz.
Não há dúvida de que, entre os séculos 10 a.C. e 5. a.C, o pensamento grego tende a considerar os maus demônios mais frequentes do que os bons e apresentar uma visão pessimista da existência humana. Não é por acaso que os gregos inventaram a tragédia. Uma expressão radical desse pessimismo nos é fornecido por um velho provérbio grego, segundo o qual “a melhor de todas as coisas é não nascer”.
Foi a filosofia que rompeu com essa visão pessimista e procurou estabelecer orientações para que o homem procurasse a felicidade. Demócrito de Abdera (aprox. 460 a.C./370 a.C.) julgava que a felicidade era “a medida do prazer e a proporção da vida”. Para atingi-la, o homem precisava deixar de lado as ilusões e os desejos e alcançar a serenidade. A filosofia era o instrumento que possibilitava esse processo.
Virtude e justiça
Sócrates (469 a.C./399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando que ela não se relacionava apenas à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para ele, o homem não era só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, a felicidade era o bem da alma que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa.
Para Sócrates, sofrer uma injustiça era melhor do que praticá-la e, por isso, certo de estar sendo justo, não se intimidou nem diante da condenação à morte por um tribunal ateniense. Cercado pelos discípulos, bebeu a taça de veneno que lhe foi imposta e parecia feliz a todos os que o assistiram em seus últimos momentos.
Entre os discípulos de Sócrates, Antístenes (445 a.C./365 a.C.) acrescentou um toque pessoal à ideia de felicidade de seu mestre, considerando que o homem feliz é o homem autossuficiente. A ideia de autossuficiência (que, em grego, se diz “autarquia”,) continuará diretamente vinculada à de felicidade nos setecentos anos seguintes.
Uma função da alma
Mas o maior discípulo de Sócrates, que efetivamente levou a especulação filosófica adiante de onde a deixara seu mestre, foi Platão (348 a.C./347 a.C.), o qual considerava que todas as coisas têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtem a felicidade.
É importante deixar claro que noções como virtude e justiça integram uma vertente do pensamento filosófico chamada Ética, que se dedica à investigação dos costumes, visando a identificar os bons e os maus. Para Platão, a ética não estava limitada aos negócios privados, devendo ser posta em prática também nos negócios públicos. Desse modo, o filósofo entendia que a função do Estado era tornar os homens bons e felizes.
A ligação entre ética e política estará ainda mais definida na obra do mais importante discípulo de Platão, Aristóteles (384 a.C./322 a.C.), o qual dedicou todo um livro à questão da felicidade: a “Ética a Nicômaco” (que é o nome de seu filho, para quem o livro foi escrito). Amigo de Platão, mas, em suas próprias palavras, “mais amigo da verdade”, Aristóteles criticou o idealismo do mestre, reconhecendo a necessidade de elementos básicos, como a boa saúde, a liberdade (em vez da escravidão) e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz.
Felicidade intelectual
Por outro lado, a partir de uma série de raciocínios que têm como base o fato de o homem ser um animal racional, Aristóteles conclui que a maior virtude de nossa “alma racional” é o exercício do pensamento, pelo quê, segundo ele, a felicidade chega a se identificar com a atividade pensante do filósofo, a qual, inclusive, aproxima o ser humano da divindade.
Sem perder de vista a aplicação prática de suas ideias, Aristóteles considera a política como uma extensão da ética e, nesse sentido, para ele também é uma função do Estado criar condições para o cidadão ser feliz. O Estado que o filósofo tinha em mente, porém, era a “polis” grega, que, naquele momento, estava deixando de existir, com o surgimento do império de Alexandre o Grande.
Depois de Alexandre, no mundo grego ou helênico, desenvolveram-se três escolas filosóficas que vão se estender até o fim do Império romano, as chamadas filosofias helenísticas. Todas elas, por caminhos diferentes, chegam a conclusão de que, para ser feliz, o homem deve ser não só autossuficiente, mas desenvolver uma atitude de indiferença, de impassibilidade, em relação a tudo ao seu redor. A felicidade, para eles, era a “apatia”, palavra que, naquela época, não tinha o sentido patológico que tem hoje.
Prazer e salvação da alma
Entre os filósofos do mundo helênico, pode-se citar Epicuro (341 a.C./271 a.C.), para deixar claro que essa ideia de “apatia” não significa abdicar ao prazer. O prazer era essencial à felicidade para Epicuro, cuja filosofia também é conhecida pelo nome de hedonismo (em grego “hedone” quer dizer “prazer”). Mas ele deixa claro, numa carta a um discípulo, que não se refere ao prazer “dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao da impassibilidade que liberta de desejos e necessidades.
Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu do horizonte da filosofia. Estando relacionada à vida do homem neste mundo, ela não interessou aos filósofos cristãos como Agostinho de Hipona (354 d.C./430 d.C.),Anselmo de Canterbury (1033/1109) ou Tomás de Aquino (1225/1274), todos santos da Igreja católica. Para a filosofia cristã, mais do que a felicidade, o que conta é a salvação da alma.
Os filósofos voltaram a se debruçar sobre o tema na Idade Moderna. John Locke(1632/1704) e Leibniz (1646/1716), na virada dos séculos 17 e 18, identificaram a felicidade com o prazer, um “prazer duradouro”. Alguns décadas depois, o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724/1804), na obra “Crítica da razão prática” definiu a felicidade como “a condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade”.
Direito do homem
No entanto, para Kant, como a felicidade se coloca no âmbito do prazer e do desejo, ela nada tem a ver com a Ética e, portanto, não é um tema que interesse à investigação filosófica. Sua argumentação foi tão convincente que, a partir dele, a felicidade desapareceu da obra das escolas filosóficas que o sucederam.
Mesmo assim, não se pode deixar de mencionar que, no mundo de língua inglesa, na mesma época de Kant, a ideia de felicidade ganhou lugar de destaque no pensamento político e buscá-la passou a ser considerada um “direito do homem”, como está consignado na Constituição dos Estados Unidos da América, que data de 1787 e foi redigida sob a influência do Iluminismo.
Egocentrismo e infelicidade
É também no âmbito da filosofia anglo-saxônica, no século 20, que se encontra uma nova reflexão sobre nosso assunto. O inglês Bertrand Russell (1872/1970) dedicou a ele a obra “A conquista da felicidade”, usando o método da investigação lógica para concluir que é necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens para ser feliz. Para ele, em síntese, a felicidade é a eliminação do egocentrismo.
Mais recentemente, em 1989, o filósofo espanhol Julián Marías também dedicou ao tema um livro notável, “A felicidade humana”, em que estuda a história dessa ideia, da Antiguidade aos nossos dias, ressaltando que a ausência da reflexão filosófica sobre a felicidade no mundo contemporâneo talvez seja um sintoma de como esse mesmo mundo anda muito infeliz.
Bibliografia
Abbagnano, Nicola - "Dicionário de Filosofia", Martis Fontes, São Paulo, 2000.
Berti, Enrico - "No princípio era a maravilha", Loyola, São Paulo, 2010.
Marías, Julián - "A felicidade humana", Duas Cidades, São Paulo, 1989.

Antonio Carlos Olivieri Antonio Carlos Olivieri é jornalista e escritor.

O mundo contemporâneo e os seus valores


O tempo de hoje não é mesmo mais o tempo de ontem. Mas isso não é uma obviedade qualquer. Desde a infância, o homem é estimulado a consumir. Aliás, a criança é fonte de lucro. Basta ver as propagandas sobre produtos que devem ser adquiridos para satisfazer e “garantir” uma vida boa para os bebês que ainda vão nascer. Já na barriga da mãe eles são fontes de dinheiro. Tudo passa a valer a pena ser comprado. Os tentáculos do consumo têm provocado uma mudança profunda nos valores que tomamos para guiar as nossas vidas. O mundo dos desejos pertencem a outrem, que vai nos estimulando a cada instante a trocar, a comprar, enfim, a consumir. E o que se constata é que o produto adquirido torna-se descartável daqui a pouco. Nada é estável e nem consolidado.
Ao fim de tudo, o desejo torna-se infinito por natureza e passamos a maioria do nosso tempo vital tentando saciá-lo. E ao mesmo tempo convivemos com a insatisfação permanente. Nem ao menos aprendemos a manipular uma TV ou qualquer outro aparelho eletrônico, a publicidade nos diz que surgiu um mais moderno e requintado. É preciso trocar!
Parece que convivemos em um tempo que não nos dá mais a chance de refletir, pois há uma “sociedade secreta” que pensa por nós. Dá aquela sensação de que estamos sendo manipulados por forças alheias à nossa vontade. Nem precisamos ir mais às Igrejas ou recorrer à família ou a um partido político para buscar, viver ou experimentar valores ou mandamentos. Tudo já está pensado, fabricado e pronto para ser digerido e vivido.
Não são poucos os pensadores que escreveram sobre isso. Nietszche, Max Weber, Zigmunt Bauman, entre outros, considero os mais proeminentes que abordam a questão. Os valores universais que orientavam e davam sentido ao agir humano parece que foram substituídos e aniquilados. Tudo agora é efêmero, descartável, flácido, desencantado, liquido e ultrapassado. Se quisermos alguma dignidade no viver é preciso estar aberto ao novo a todo instante. Um novo que nem dá tempo de conhecê-lo direito, pois em pouco tempo já está velho.
Uma situação como essa lembra as frutas que são amadurecidas artificialmente. O seu sabor, o seu perfume e a sua textura se revestiram de uma qualidade e de características quase irreconhecíveis. Visto que nada mais é durável, isto é, a rapidez é o mote e o motivo da vida humana, novos valores precisam ser inventados bem como novas posturas e atitudes.
Viver na contemporaneidade é enfrentar as trevas e as luzes que ela lança sobre nós. Ser contemporâneo é ter a capacidade de reconhecer a presença da imagem de algo que ausenta a todo instante, pois percebe que a vida e, nós mesmos, somos incompletos e provisórios. “Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, diz o filósofo Giorgio Agamben.  Os valores do nosso tempo estão constitutivamente adiantados a si mesmo e a nós e, exatamente por isso, também sempre atrasados, pois tem sempre a forma de um limiar inapreensível entre um “ainda não” e um “não mais”. O desafio é viver nesse limiar. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O QUE É O HOMEM?



Quando começa um novo ano sempre tendemos a considerar e a reconsiderar os planos e os projetos para o futuro, com a esperança de que as coisas vão melhorar. É intrínseco à condição humana desejar que os rumos da vida se aperfeiçoem em direção a um estado de felicidade universal. Ninguém em sã consciência, ou até sem ela, faria pedidos para que sua existência tornasse um mar de espinhos, com dores e sofrimentos.
No entanto, experimentamos em nosso cotidiano situações em que temos alegrias, sim, porém, também vivemos momentos terríveis: doenças, mortes de familiares, acidentes, crises, etc. Estamos sempre na berlinda, ou seja, a qualquer instante podemos ser atravessados por uma tragédia que nos atinge inesperadamente. Aquele ser forte, destemido, esperançoso, crente de que nada o derrubaria, é quase aniquilado. Na linguagem do boxe: vai à lona. Temos que contar até dez para conseguir se levantar, suportando e superando a dor.
Creia! Ser feliz todo tempo é somente para os deuses, e olhe lá!  Pois não sabemos como vive um deus. Aliás, alguém agüentaria conviver com uma pessoa alegre e sorridente vinte e quatro horas por dia? Nós, humanos, aqui na terra, somos desafiados a aprender a enfrentar as agruras e as calamidades pessoais, naturais e sociais de maneira destemida. É verdade que há momentos em que fraquejamos, revelando a nossa finitude. Estou dizendo tudo isso para chamar a atenção para duas coisas: primeiro, quem somos nós e, segundo, o que podemos querer da vida.
Etimologicamente, homem vem do latime homine, que advem de húmus, referindo ao chão, à terra, àquilo que é terrestre. Como se vê, estaríamos distante dos céus, e dos deuses, mas ligado ao pó. Componente da natureza, o homem é um ser limitado, incompleto e, a crer em Darwin, originário de um processo evolutivo da vida na terra que não se sabe, definitivamente, quando começou e muito menos quando vai se acabar. Ou seja, não dá para dizer que hoje é melhor do que ontem, e que amanhã será melhor do que hoje.
Todavia, aprendemos ou até mesmo agimos ao longo de nossa vida como se fôssemos ou pudéssemos ser senhor de nossa história. Essa seria a nossa diferença com os outros seres viventes. E essa distinção estaria fundada na nossa capacidade de raciocinar e agir inteligentemente. Ao contrário de certos animais, que já nascem prontos, isto é, já nascem sendo tudo aquilo que podem ser, o homem, por sua vez, é potência, campo aberto a ser cultivado. Estamos aí para sermos feitos e construídos.
Dito de outro modo, além de razão, somos dotados de vontade, ou seja, estamos aptos a escolhermos e decidirmos sobre o que queremos e desejamos para as nossas vidas. E aqui, nos parece, que está o nosso grande mistério.
Enfim, estamos diante de um desafio. Como conciliar um ser natural, racional e dotado de vontade, em prol de uma vida mais agradável a todos e não apenas a alguns? Seria possível? 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O QUE SOBROU DA SALA DE AULA

Bom dia. O texto a seguir indica em boa medida algumas ideias importantes para se pensar e se praticar a educação na atualidade. Duas delas se destacam: 1. A educação deve elevar substancialmente o nível da formação cultural das novas gerações; 2. A educação só o é na perspectiva dos valores da universalidade do homem, como instrumento de humanização. Delas, a formação do professor e a prática pedagógica devem partir, caso queiramos edificar algum sentido à própria vida.
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O que sobrou da sala de aula

Reflexão para um tempo de altas apostas na educação: a praga do economismo não distingue uma escola de uma fábrica de pregos


José de Souza Martins* - O Estado de S. Paulo
Já foi o tempo em que a educação fazia parte do cardápio de otimismos que se costuma apresentar nas passagens de ano. No último meio século, a educação pública e gratuita, que garantira a formação de grandes nomes e grandes competências nas várias profissões, que assegurara o grande salto da sociedade escravista à sociedade moderna, foi progressivamente diminuída e até injustamente satanizada em nome de interesses que não são os do bem comum. O estado de anomia em que se encontra a educação brasileira pede, sem dúvida, a reflexão crítica dos especialistas, mas uma crítica que a situe na trama própria de tendências problemáticas da modernidade sem rumo para que seja compreendida e superada.
A educação brasileira foi atacada por três pragas que subverteram a precedência do propriamente educativo na função da escola e do processo educacional: o economismo, o corporativismo e o populismo. O economismo na educação não distingue entre uma escola e uma fábrica de pregos. A pedagogia do economismo confunde aluno com produto e trata a educação e o educador na perspectiva da produtividade, da coisa sem vida, da linha de produção. Importam as quantidades da relação custo-benefício. Não importa se da escola não sai a pessoa propriamente formada, transformada. Importam os números, os índices, os cifrões. Presenciei os efeitos dessa mentalidade na apresentação de um grupo de militantes da causa das cotas raciais perante o conselho universitário de uma das três universidades públicas de São Paulo, de que sou membro. Aliás, nenhum deles propriamente negro: "Não queremos vagas em qualquer curso; queremos em engenharia e medicina, cursos que dão dinheiro", frisaram.
Quer o governo que os royalties do pré-sal sejam destinados à educação e nem temos certeza de que isso acontecerá. Os políticos têm outras prioridades, especialmente a das urnas. Já estamos gastando o dinheiro que ainda não saiu do fundo do mar. Mas não sabemos em que esse dinheiro fará o milagre de transformar, expandir e melhorar a educação brasileira e de elevar substancialmente o nível da formação cultural das novas gerações. Dinheiro não educa. Quem educa, ainda hoje, é o educador. É inútil ter máquinas, computadores, tecnologia, maravilhas eletrônicas na sala de aula se, por trás de tudo isso, não houver um educador. Se não houver aquele ser humano especializado que faz a ligação dinâmica entre as possibilidades biográficas do educando e os valores e requisitos de um projeto de nação, a nossa comunidade de destino. Se não houver, sobretudo, a interação viva entre quem educa e quem é educado, se não houver a recíproca construção de quem ensina e de quem aprende. Se não houver a poesia deste verso de Vinicius de Moraes: "E um fato novo se viu que a todos admirava: o que o operário dizia, outro operário escutava".
O corporativismo transformou o professor de educador em militante de causa própria porque a serviço da particularidade da classe social e não a serviço da universalidade do homem. Não há dúvida de que o salário que valorize devidamente o educador e a educação é uma das premissas da revolução educacional de que carecemos. Do povoado do sertão ao câmpus universitário da metrópole, o educador tem carências que não são as carências do Fome Zero. Educação não é farinha de mandioca. "Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê", dizia Monteiro Lobato, em relação a um item da cesta básica do educador. Fome de educador não é fome de demagogo nem pode ser. Privá-lo dos meios para se educar, reeducar e poder educar é desnutri-lo.
A partidarização de todos os âmbitos da sociedade brasileira, até da religião, levou para dentro da educação os pressupostos da luta de classes. O militante destruiu o educador, drenou da educação a seiva vital que lhe é necessária para ser instrumento de socialização, de renovação e de criação social. A educação só o é na perspectiva dos valores da universalidade do homem, como instrumento de humanização e não como instrumento de segregação e de polarização ideológica, instrumento do que separa e não instrumento do que junta. Na escola, a ideologia desconstrói a escola em nome do que a escola não é.
O populismo, por sua vez, transformou a educação em meio de barganha política, instrumento de dominação, falsificação de direitos em nome de privilégios. O direito que nega a universalidade do homem nega-se como direito. Pela orientação populista, o importante não é que saiam da escola alunos bem formados, capazes de superações, gente a serviço do País. Nas limitações desse horizonte, o importante é que da escola saiam votos, obediências, o ser carneiril das sujeições, e não o cidadão das decisões.
A escola vem sendo derrotada todos os dias, do jardim da infância à universidade, pela educação difusa e extraescolar dos poderosos meios de produção e difusão do conhecimento que já não estão nas mãos do educador. A escola é cada vez mais resíduo de poderes e vontades que estão longe da sala de aula.
* JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA USP, AUTOR DE A POLÍTICA DO BRASIL: LÚMPEN E MÍSTICO (CONTEXTO)

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-que-sobrou-da-sala-de-aula,978961,0.htm

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A razão pode tudo?



Não pode, mas ajuda bem. Essa seria uma resposta bem direta e rápida, mas vivemos num tempo que é preciso parar um pouco mais para responder. A história mostra que somos culturalmente formados para acreditar no poder da razão. Na época moderna, a razão adquiriu o status de guardiã e vanguarda das transformações que vimos acontecer no mundo. As práticas científicas, fundadas na razão, se transformaram em técnicas que penetraram com seus tentáculos nas mais diversas esferas das atividades humanas. Pensemos: em qual área que ainda não entramos para investigar?
Esse poderio todo se manifestou inclusive em fatos históricos bem recentes, como é o caso, por exemplo, do nazismo na primeira metade do século passado. Cruel e bárbaro, o nazismo para se instalar teve a colaboração de pessoas que pensaram racionalmente sobre a melhor maneira de dominar e exterminar outras pessoas. Semelhantes eliminando semelhantes. Filósofos, sociólogos, médicos, biólogos, etc, tornaram-se algozes atrozes de uma política de aniquilação de homens, mulheres e crianças. Tudo foi pensado, planejado e executado racionalmente. Engenheiros e químicos, oriundo dos bancos universitários, calcularam sob medida a funcionalidade de um campo de concentração e da câmara de gás.
No livro Dialética do Esclarecimento, escrito em 1947 e de dois filósofos judeu-alemães, Theodor Adorno e Max Horkheimer, que foram perseguidos pela política anti-semitismo, é apresentada uma análise crítica desse processo de constituição da ideologia racionalista. Procurando entender por que será que um discurso que prometia a emancipação humana levou uma nação a uma atitude tão violenta e totalitária, os autores concluem que o esclarecimento prometido não passou de uma profunda calamidade humana.
Membros da Escola de Frankfurt, Adorno e Korkheimer, concluíram que esse negócio de “esclarecimento” se constitui, nada mais nada menos, do que uma série de fenômenos modernos, dentro dos quais encontramos o processo de racionalização, que rompe com a tradição e faz com que os hábitos de vida modernos sejam guiados pela lógica do cálculo e da previsibilidade.
Nesse processo, o mundo é desmitologizado, levando o homem moderno a deixar de lado suas crenças antigas, direcionando-o a apostar tão-somente nas crenças baseadas na razão. Assim, o que se vê é a matematização do conhecimento, em que considera como conhecimento válido apenas aquilo que é comprovado e testado segundo a lógica racional da ciência moderna.
A consequência direta desse desenrolar histórico é a transformação do saber em aparato de dominação, visto que os detentores do domínio racional executam a prática de dominação política e econômica sobre o mundo, de modo que poder e conhecimento aparecem como sinônimos, levando o sujeito moderno à condição de refém da técnica racional como verdade.
O estilo de vida que se apresenta agora é que os homens deixam-se enganar pela aparência da sociedade capitalista e do seu meio de produção. Por fim, tudo agora se torna capaz de passar pelo crivo da técnica, fazendo com que os métodos burocráticos e tecnicistas, baseados na racionalidade, no cálculo e na disciplina, sejam tidos como os mais corretos no desenvolvimento das diretrizes modernas. E com isso, o mundo dos sentimentos, das paixões, etc, tende a desaparecer pela repressão. Mas isso é assunto para outra conversa.

*Alonso Bezerra de Carvalho é formado em Filosofia e Ciências e Doutor em Filosofia da Educação. É professor da Unesp. E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br