segunda-feira, 7 de maio de 2012

A terapia e nosso tempo



 
Na atualidade há uma sensação de que as pessoas estão procurando em maior quantidade os consultórios de psicólogos, psiquiatras e outras terapeutas. Parece que elas não estão conseguindo suportar sozinhas os problemas que lhes afligem nos seus cotidianos. Estresses, relacionamentos familiares e no trabalho, angústias, ansiedades, depressões e perturbações de todas as ordens, tem trazido incômodos, desconfortos e desequilíbrios. Mas como anda o tratamento para esses problemas?
Na entrevista abaixo, o psicoterapeuta norteamericano nos alerta sobre o papel que os profissionais da psique humana tem desempenhado no tratamento de seus pacientes. Para ele, a maioria dos pacientes precisaria apenas de poucas semanas de tratamento para enfrentar e resolver os seus problemas. No entanto, o que se vê são inúmeras sessões que não levam a lugar nenhum, sem finalidades, não passando de exclusivos momentos de desabafo.
É verdade que não são possíveis soluções mágicas a problemas que tem suas origens desde longa data. E mais. Há problemas que estão incrustados em nosso existir que quase acreditamos que nasceram conosco, como um braço, uma perna, etc. Cada dia nos defrontamos com situações que nos tira de nós mesmos. A velocidade do nosso tempo não nos dá possibilidade de nos ocupar com mais cuidado da construção de uma vida saudável. Mesmo sabendo que as honras, as riquezas, o prestígio, o poder, etc, não nos traz felicidade, é difícil encontrar alguém que não dedique o seu dia a querer satisfazer os seus desejos. Fugir da dor e buscar o prazer parece dois lados que se combinam e orientam as nossas ações.
Como colocamos como meta de nossas vidas essa suposta felicidade, causando, como decorrência, a frustração, queremos encontrar um remédio que nos cure imediatamente. Alguns se dirigem às igrejas e outros vão aos terapeutas. No caso da terapia, como diz o psicoterapeuta acima citado, quando ela não está melhorando, o melhor é abandonar, pois há uma diferença entre se sentir bem e de fato melhorar. Diz ele: “se você vai à terapia semanalmente há anos e não vê nenhuma melhora, saia fora”.
Todavia, é preciso ressaltar que essa discussão tem sua importância, mas o que vale mesmo a pena é pensar e tentar compreender o que se passa com a vida humana na atualidade. Quais são as causas dos problemas que nos atingem diariamente? Olhe para si mesmo e observe que experiências de vida feliz você teve hoje, ontem, etc. A sensação que dá é de que sempre nos falta algo, ou não é verdade? Se terminamos uma tarefa aqui, logo surge uma necessidade acolá. E assim vamos passando o tempo como no mito Sísifo. Sísifo tornou-se conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses.
Embora nós mortais tenhamos a liberdade de escolha, devendo, pois, concentrar-nos nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, isso é feito na maior da parte das vezes de maneira repetitiva e monótona. E pelo jeito não há terapia que dê conta mesmo. O que nos resta, talvez, é construir uma maneira de viver baseada na virilidade, no heroísmo e na resistência. Estamos ou somos preparados para isso? A pensar!

Psicoterapia deve ter metas e não se estender por anos

Terapeuta dos EUA causa polêmica ao defender que a maioria dos pacientes precisa só de poucas semanas de tratamento e que terapia deve ter objetivos para não ser um "desabafo" 

Há 15 dias, o psicoterapeuta americano Jonathan Alpert mexeu com os brios dos colegas ao publicar um artigo no "New York Times" em que questionava a eficácia de tratamentos de longo prazo.

Citava um estudo de 2010 no "American Journal of Psychiatric" para dizer que só 10% dos pacientes fazem mais de 20 sessões e um de 2006 no "Journal of Consulting and Clinical Psychology" para afirmar que o progresso cai de 88% para 62% após a 12ª sessão. Culpava os pares.

A resposta, diz, veio numa avalanche de e-mails tanto mandando-o para o inferno como elogiando por contestar algo pouco questionado.

Artigos contra e a favor se multiplicaram, cartas de psicanalistas chegaram ao "Times" pedindo cuidado com generalizações e a lista de clientes do psicólogo que atende em Nova York e acaba de lançar "Be Fearless - Change Your Life in 28 Days" (Seja destemido - mude sua vida em 28 dias, que sai no Brasil no fim do ano) cresceu.

Mas ele nega que ofereça solução mágica, como acusam os críticos que viram no artigo uma autopromoção.

Sua defesa, diz, é de uma terapia que mostre resultado, em que paciente e analista tracem metas e que não sirva apenas "para desabafar".

"Pela minha experiência, a maioria busca ajuda para questões menores e tratáveis: insatisfação no trabalho ou no relacionamento. Não é preciso anos de terapia para isso." Alpert conversou com a Folha por telefone.

Folha - Qual tem sido a reação ao seu artigo? Crítica?

Jonathan Alpert - Interessante. Recebi centenas de e-mails, muitos de ódio, inclusive de outros terapeutas, que me mandaram para o inferno. Mas para cada negativo vieram uns três positivos.

Na manhã após a publicação, a secretária eletrônica do consultório tinha umas 20 ligações de gente que queria se tratar comigo. No fim da semana, mais 60 [ele atende 25 pacientes por semana].

Qual era sua relação com os colegas antes do artigo?

Dividida. Há outros terapeutas aqui que têm essa orientação mais comportamental como eu. E eles me apoiaram -recebi vários e-mails elogiando a coragem.

Quando você diz que terapia de longa duração é pouco eficaz, você se refere aos casos de forma geral ou quer dizer que terapeutas ruins mantêm o paciente por muito tempo?

O segundo caso. E meu argumento é que se você está na terapia e não está melhorando, você tem de sair. Há muita diferença entre se sentir bem e de fato melhorar. Eu costumo usar a analogia do cabeleireiro -se você vai e odeia o corte, vai voltar para quê? Se você vai à terapia semanalmente há anos e não vê nenhuma melhora, saia fora.

Mas como medir se a psicoterapia é eficaz?

O que eu faço, e muitos fazem, é definir metas desde o começo e monitorar o progresso. Se alguém com ansiedade social vem me ver, a meta é a pessoa se sentir confortável em um bar ou um encontro. Vamos trabalhando e vendo como ela se sai.

Você já tratou alguém por mais do que 12 semanas?

Sim, claro, há gente que eu trato por meses, e depois faço sessões de manutenção uma ou duas vezes por mês.

Sempre com as metas?

As pessoas podem ficar patinando na terapia. Você vai, desabafa e se sente bem por falar. Aí espera aquilo toda semana, mas isso não necessariamente faz você avançar em direção a um objetivo.

E quando a terapia pode durar mais e ser boa?

Alguns transtornos precisam de mais tempo para serem tratados, como estresse pós-traumático. E condições psiquiátricas ou psicológicas mais graves precisam não só de mais tratamento, mas também de manutenção.

Não é o caso da ansiedade e da depressão leve, que levam a maioria ao consultório?
Eu cito essas duas no artigo. As razões que levam mais gente ao consultório -ao meu, ao menos- são ansiedade, problemas na carreira, problemas no relacionamento e estresse. Nada disso precisa de anos para ser tratado.

Mas qual deve ser o objetivo do terapeuta e do paciente? Um problema pontual pode ser resolvido em semanas, mas e a raiz? Se as circunstâncias mudarem na vida de um dos seus pacientes, os problemas não reaparecerão?
Você tenta ensinar a pessoa a resolver o problema, para que possa lidar com ele no futuro caso reapareça. Mas há quem não seja bom nisso.

Identificar o problema e dar ferramentas? Nada de discutir a infância...
Às vezes é relevante. Mas eu não passo sessões incontáveis falando sobre a infância. Os pacientes reagem melhor quando olham para a frente.

Como você percebeu que o tipo mais convencional de terapia não era o seu?

No começo da minha carreira, eu tinha pacientes que me diziam que seu terapeuta anterior só sabia perguntar "como você se sente com isso?". Passavam anos assim, mesmo sem achar que funcionava. Eu escrevia uma coluna de jornal com pouco espaço e tinha de dar conselhos. Recebia cartas agradecendo pela ajuda e pensei que isso pudesse funcionar em terapia também. Identificar o problema e dar conselhos. A reação foi boa.

E por que muitos continuam indo à terapia, sem avanço?

Muita gente acha que psicoterapia é só para desabafar. Não sabe que dá trabalho, que muita coisa precisa ser feita fora do consultório.

Falta informação?
É. Tem uma ideia perpetuada por Hollywood. Se você perguntar para dez pessoas o que é psicoterapia, pode esperar que sete dirão que se trata de desabafar, se abrir.

Qual o maior erro ao procurar um psicoterapeuta?

Não sei, mas sei o que ajuda a achar um. Boca em boca é bom, se você se sentir confortável para perguntar a amigos ou conhecidos, porque há estigma ainda. Também dá certo perguntar ao seu médico.

É preciso pesquisar. Telefonar, ao menos, a alguns terapeutas, falar com eles por uns dez, 15 minutos, para ter ideia do estilo, perguntar como ele trataria seu problema.

Não há quem tenha medo de perguntar ou de cobrar soluções ao terapeuta? O mecanismo, afinal, tem duas partes...

Verdade. Eu sempre digo a meus pacientes que nós dois temos de trabalhar duro e que ele precisa implementar os novos comportamentos fora do consultório. Se ele está esperando uma solução mágica, não vai acontecer.

"O Segredo" fez sucesso.

Acho que há pessoas procurando mágica. São preguiçosas. Se você puder acreditar que vai virar um milionário, é mais fácil do que arregaçar as mangas e dar duro.

Terapia é para todos?

Não. Não acho. Acho que a pessoa realmente tem de querer olhar para si mesma e mudar. Se não é um desperdício de tempo e de dinheiro.

*Mas muitas vezes é posta como solução universal. *

Algumas pessoas são narcisistas, egocêntricas, falar por uma hora e ser o centro das atenções as satisfaz.

A crise econômica aumentou seu trabalho? Você participou de "Trabalho Interno" (documentário de 2010 premiado com o Oscar).

Em 2008, eu comecei a receber cada vez mais pacientes de Wall Street, com problemas de ansiedade ligada ao trabalho. No fim do ano, foi um surto. Eram sobretudo homens, executivos, perdendo o emprego... O problema é que a identidade deles estava tão fundida com sua carreira que, quando eles perdiam o emprego, a vida deles perdia o sentido. Nunca queira se definir por sua carreira. 
Melhorou?

Acho que as pessoas se acostumaram.




Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO- 07 DE MAIO DE 2012.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Correção


Oi. Bom dia. No artigo Os humanos e suas circunstâncias, na segunda linha, onde se lê 80 anos, leia-se 100 anos. Afinal, a tragédia do Titanic ocorreu no dia 10 de abril de 1912.
Obrigado
Prof. Alonso Bezerra de Carvalho

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os humanos e suas circunstâncias


Outro dia a TV exibiu mais alguns fatos e notícias sobre o desastre do navio Titanic. Mesmo que tenha acontecido há exatamente 80 anos, o naufrágio ainda causa curiosidades e desafios a serem desvendados. Todavia, o que me chamou atenção é fato ou atitude do comandante. Mesmo nunca se sabendo o que realmente ocorreu, o chefe da tripulação deve ter passado por uns maus bocados antes de tomar alguma decisão. Na reportagem, consta que ele, inicialmente, não acreditou que um caos completo se avizinhava (na figura de um iceberg) e ordenou que os motores continuassem funcionando e a viagem prosseguisse.  Nada de pânico, tranquilizava ele.
Mas o pior estava acontecendo: a embarcação sendo tomada pelas águas, adernando, a multidão em desespero tentando se salvar como podia, até que a tragédia se instaurou. Centenas de mortos e o desaparecimento completo do navio.
Pois bem. Eu trago essa imagem para que possamos refletir sobre o que, de fato, significa viver. Creio que não se vive antecipadamente. Não é possível prever e calcular praticamente quase nada, apesar dos mais bem feitos planejamentos. No conjunto do existir, experimentamos o imprevisível, o risco e a imponderação. Viver não é preciso, nem navegar. A todo instante o surpreendente nos provoca e nos convoca, apesar de nossa insistência em considerar e até acreditar que controlamos as coisas. Mas o que fazer ante tudo disso?
Talvez uma das escolhas seja levar em conta as circunstâncias, isto é, as ocasiões, as situações, os casos, etc, que nos atingem, que nos chegam, que nos atravessam e que nos afetam. A todo o momento somos cruzados por acontecimentos que nem sempre temos consciência de onde vem. Apesar disso, somos o resultado desse processo. A realidade que nos rodeia faz parte de nós e nós dela. Não somos separados dela e nem ela de nós. Nós nos comunicamos com o mundo a partir de nossas circunstâncias e, assim, nos ligamos, qual um cordão umbilical, com o universo todo.
Portanto, é na realidade concreta da vida que vivemos. Assim, devemos estar atentos às circunstâncias, as de perto e as de longe. Olhar com acuidade, com profundidade, as coisas, os outros, os fatos, os icebergs. Enfrentar o inevitável é estar aberto ao novo, ao surpreendente. É ligar coisa com coisa, e tudo conosco.
Quando viramos as costas e perdemos o sentimento de pertença ou de pertinência, evadindo-se e se desligando do mundo, nos tornamos presa fácil de um destino e de um sentido que não nos é dado a chance de reconhecimento. Anulamo-nos.
Enfim, estar no comando de nossas existências é tomar e ser parte do concreto. Carne, osso e espírito que somos, devemos nos responsabilizar, ou seja, dar uma resposta ao que se avizinha de nós, humanos, mesmo correndo o risco das tragédias. As tragédias ou o trágico também fazem parte de nossas circunstâncias. Mas cuidado: nada de desespero! De nada adiantará.

terça-feira, 13 de março de 2012

A imperfeição humana





Quando falamos sobre o ser humano, tendemos a nos considerar como superiores e resultado de um processo evolutivo, visto de maneira otimista, progressista e esperançosa.  Num de seus escritos, o filósofo sofista e pré-socrático Protágoras (século V a.C.) teria dito que “o homem é a medida de todas as coisas; das coisas que são e daquelas que não são”. Um primeiro entendimento desse fragmento é que o homem daria o sentido e seria padrão das coisas que  inventa, cria, constrói, fala; das coisas visíveis ou  perceptíveis e das coisas invisíveis ou imperceptíveis, alcançadas pelo pensamento.
Enfim, de todas as coisas o homem seria a medida. Ele seria o critério da realidade. O ser e o não ser dependem inteiramente das sensações, percepções, opiniões, ideias e ações humanas. As coisas são ou não são conforme os humanos as façam ser ou não ser, ou digam que elas são ou não. Isto significa que é por ação humana que as coisas existem tais como são e que outras não existem, porque os homens convencionaram, por meio de leis, não admiti-las.
Essa compreensão do homem pode ser tomado, ao mesmo tempo, como algo que o enobrece ou que o empobrece. A principio, ser medida de todas as coisas significa que tudo se reduz e é conduzido por nossas mãos, o que nos torna senhores do mundo. Por outro lado, nos torna impotentes e fracos, pois temos que estar sempre alertas e atentos para que aquilo que construímos e edificamos permaneça e dure para sempre. No entanto, as coisas não são bem assim, visto que elas estão em perpétua mudança e nós estamos em perpétua mudança.
Duas pessoas podem e geralmente tem percepções e opiniões diferentes e até opostas sobre coisas que parecem idênticas ou iguais. Assim, fica praticamente impossível determinar um saber universal e necessário sobre elas. Não haveria a Verdade, mas verdades que movimentam as nossas vidas e as nossas ações.
Diante disso, fica-se a ideia ou a sugestão de que nós, humanos, somos imperfeitos e precários, e que ser a medida de alguma coisa, não nos ajuda em nada. Basta olhar ao nosso redor e aos fatos que nos atravessam: que somos um galho que o vento sopra em várias direções, exigindo um esforço constante para não ser levado para o abismo, situação que nem sempre temos condições de obter êxito.
A ideia do filósofo francês Descartes de que somos dotados, por sermos racionais, da capacidade de distinguir o bem do mal, o certo do errado, o verdadeiro do falso e, além disso, nos diferenciar dos animais, não ajuda muito. Os acontecimentos do cotidiano, como as doenças e a morte, são indicações justamente de nossa incapacidade. O que resta é nos arriscarmos no mundo, enfrentando as exigências do dia-a-dia, com bravura e fortaleza. Viver assim, é agir considerando o imprevisível; é sacudir as imagens tradicionais que nos aprisiona  e agir em direção a experiências que crie novas formas de vida. Eis o desafio!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Viva a simbiose das culturas! Edgar Morin


Cada cultura tem as suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, suas artes de viver, seus erros, suas ilusões. É muito importante, na era global como a nossa, aspirar, em cada nação, a integração daquilo que os outros tem de melhor, e buscar a simbiose do melhor de todas as culturas.
            A França deve ser considerada em sua história, não só pelos ideais de Liberdade, Fraternidade, Igualdade promulgadas pela Revolução, mas também segundo o comportamento que teve ao exercer o poder que, como seus vizinhos europeus, praticou por séculos a escravidão, colonizando e oprimindo povos bem como negando as suas aspirações de emancipação. Há uma barbárie intrínseca à cultura européia que produziu ou tem produzido o colonialismo, os totalitarismos fascistas, nazistas e comunistas. Enfim, deve-se considerar não só uma cultura de acordo com seus ideais nobres, mas também segundo a maneira que adota para camuflar a barbaridade presentes nesses ideais.
Podemos nos orgulhar de uma minoria que é ou foi capaz de fazer uma auto-crítica da nossa cultura, de Montaigne a Lévi-Strauss passando por Montesquieu, que não só denunciaram a barbárie na conquista das Américas, mas também a barbárie de um pensamento que "chama de bárbaros os povos de outras civilizações "(Montaigne).
Da mesma forma o cristianismo, que não pode ser visto apenas pelos preceitos do amor evangélico que prega, mas também pela intolerância histórica para com outras religiões, por exemplo, o antijudaísmo milenar bem como o processo de erradicação dos muçulmanos dos territórios cristãos, embora historicamente os cristãos e os judeus fossem tolerados em países islâmicos, notadamente pelo Império Otomano.
É verdade que a civilização moderna, nascida na Europa Ocidental, espalhou no mundo inumeráveis progressos materiais, mas isso à custa de inúmeras deficiências morais, a começar  pelo grau de arrogância e de uma postura de superioridade, que suscitou o desprezo e a humilhação dos outros.

Sabedoria e artes de viver

Nessa discussão não se trata de defender um relativismo cultural, mas um universalismo humanista. Trata-se de ultrapassar o ocidental-centrismo e reconhecer a riqueza da variedade das culturas humanas. Trata-se de reconhecer não apenas as virtudes de nossa cultura e de seus potenciais emancipatórios, mas também as suas fraquezas e vícios, notadamente a vontade de poder e de domínio sobre o mundo, o mito da conquista da natureza e a crença no progresso como um destino da história.
Temos de reconhecer os vícios autoritários das culturas tradicionais, mas também a existência de solidariedades que a nossa modernidade fez desaparecer. Reconhecer que tiveram um melhor relacionamento com a natureza e considerar as sabedorias e as artes de viver nas pequenas culturas indígenas..
O falso universalismo consiste em acreditar que somos proprietários do universal -  crença que nos levou a encobrir a nossa falta de respeito por outras culturas humanas e os nossos vícios de dominação. O verdadeiro universalismo busca nos colocar em um meta-ponto de vista humano que nos engloba e nos ultrapassa, para que o tesouro da unidade humana esteja na diversidade de culturas. E o tesouro da diversidade cultural na unidade humana.
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Texto traduzido do francês por Alonso Bezerra de Carvalho. 
Texto original in: http://www.lemonde.fr/idees/article/2012/02/07/vive-la-symbiose-des-cultures_1639966_3232.html. Acesso em 11.02.2012 às 12h05.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Política, futebol e religião se discute, sim!



É corriqueiro ouvirmos no cotidiano as pessoas estarem de acordo com a idéia de que política, futebol e religião não se discutem. Ledo engano, pois as amizades, as proximidades ou até mesmo os distanciamentos entre as pessoas se dão justamente por meio de alguma dessas discussões.
No caso da política, todos os dias as pessoas debatem sobre os efeitos das decisões políticas que são tomadas, alguns concordando e outros discordando delas. E dever ser assim mesmo. Apenas nos regimes totalitários os cidadãos são convidados a ficarem quietos e aceitarem o que lhes é imposto. Quando nos silenciamos a respeito das questões políticas, tenhamos certeza de que alguém está tramando algo contra nós, com a nossa permissão. Como já dissera o pensador Bertold Brecht: “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. Portanto, não é nada orgulhoso e, sim, burrice, estufar o peito e dizer que odeia a política. Pois é de atitude ignorante e imbecil como essa que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio.
No que diz respeito à religião, ela pode ser tema de discussão, sim, pois por mais ateu que alguém possa ser, a sua vida se constitui de algum elemento espiritual e de alguma religiosidade. Para mim, o problema surge quando surgem instituições, como as igrejas, e se autoproclamam como a única representação ou a única via para a experiência do religioso. Nesse caso, elas cumprem a função já denunciada por Karl Marx quando afirma que a religião é ópio do povo, isto é, são ilusões inventadas e, como um produto tóxico, nos entorpece, nos aliena e nos enfraquece  porque a esperança de consolação e de prometida justiça no "outro mundo" transforma o explorado e oprimido num ser resignado, afastando-o da luta contra as causas reais do seu sofrimento. E se isso não bastasse, esse domínio religioso tende a nos levar a fanatismos e a fundamentalismos que mais escraviza e aniquila a vida do que liberta e nos torne seres emancipados. Exemplos grandes e pequenos não faltam no nosso dia-a-dia. Como não discutir isso?
Por fim, o futebol, parece-me, é o menos problemático, tendo em vista que os amantes desse esporte, praticantes e torcedores, sobretudo no Brasil, tendem a considerar o jogo como um momento de arrebatamento e extravasamento de paixões, que causam proximidades e debates entre as pessoas, causando, infelizmente e muitas vezes, atos de violências. De toda forma, não é por ausência de discussão que o futebol morrerá, mas pelas manipulações, o marketing exagerado e os interesses inescrupulosos que correm em seus bastidores, criando, qual a religião, um mundo prometido e jamais vivido. Na política também.
Enfim, somente pelo diálogo no espaço público é que, verdadeiramente, podemos construir uma convivência em que as relações humanas garantam a pluralidade, a diversidade e o respeito entre as pessoas. Comecemos pela política, pela religião e o futebol.