quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Para Fazer e Receber Críticas



 Criticar ou ser criticado em relação ao nosso comportamento implica dar ou receber informação muito importante. Tal informação permite que tenhamos a oportunidade de aprender, se usamos as reações de outros e as consideramos junto às conseqüências da nossa própria conduta.
Ajuda-nos, também, a estar conscientes do que fazemos e como o fazemos, aumentando, portanto, nossa habilidade de modificar nosso comportamento e de sermos mais efetivos em nossas interações com os outros.
Para auxiliar o desenvolvimento e o uso de técnicas envolvidas no ato de criticar, bem como nosso próprio desenvolvimento como indivíduos, é necessário entender certas características do processo. A seguir são descritos alguns fatores que podem ser de utilidade ao criticar e ser criticado.

1. Concentre a crítica na conduta e não na pessoa

É importante nos referirmos ao que uma pessoa faz e não ao que imaginamos o que ela é.
Enfocar conduta, quando nos referimos a uma pessoa, requer o uso de advérbios (que denotam qualidades). Por exemplo, poderíamos dizer que uma pessoa “falou muito na reunião”, em vez de dizer que a pessoa “é uma tagarela”. Ao falarmos em termos de “traço de personalidade” a conotação é de algo herdado, constante e difícil, quase impossível de mudar. Por outro lado, ao falarmos em termos de comportamento estamos enfatizando algo relacionado com uma situação específica e que, portanto, pode ser mudado. Receber críticas sobre nossa conduta intimida menos que escutá-la sobre nossa personalidade.

2. Concentre a crítica em observações e não em deduções

Uma observação é o que podemos ver ou escutar do comportamento de outra pessoa e deduções são as interpretações e conclusões que chegamos ao ver e escutar. Deduções ou conclusões sobre outros indivíduos contaminam nossas observações e, portanto, a crítica que possamos fazer-lhes. Porém se, após as observações, as deduções e conclusões são compartilhadas e discutidas com a pessoa a que se dirigem, elas podem se tornar um caminho de apoio ao que a recebe.

3. Concentre a crítica em descrições e não em juízos

Descrever é um processo pelo qual se informa algo que tenha ocorrido, enquanto que “julgar” se refere a uma avaliação em termos de “bom” ou “ruim”, “correto” ou “incorreto”, “agradável“ ou “desagradável”. Os juízos provêm de uma postura e referência pessoal, de um conjunto de valores, enquanto que a descrição, dentro do possível, representa uma forma neutra de informar.

 4. Concentrar a crítica em descrições de conduta em termos de mais ou menos e não em relação a tudo ou nada

As terminologias “mais” ou “menos” implicam um marco amplo dentro do qual se pode situar o comportamento enfatizando a quantidade, que é objetiva e significativa, e não a qualidade, que é subjetiva e julgadora.. Em outras palavras, a participação de uma pessoa pode ser situada em certo marco, desde “baixa” até “alta”, e não em termos de “boa” ou “má”. Não pensar em termos de “mais “ ou “menos” e não situar o comportamento dentro de um contínuo leva ao risco de cair na armadilha de pensar em categorias, as quais podem representar uma grave distorção da realidade.

5. Concentre a crítica sobre comportamentos específicos, no momento em que ocorrem, e não sobre situações abstratas

O que fazemos está sempre relacionado com tempo e lugar, e portanto entenderemos melhor nosso comportamento se o observarmos também em relação a tais elementos. A crítica tem geralmente maior significado se é dada ou recebida próximo do momento em que a observação ou reação ocorreu, e dessa forma se consegue relação direta, sem as distorções que ocorrem com o passar do tempo.

 6. Concentre a crítica em compartilhar idéias e informações e não em dar conselhos

Compartilhar idéias e informações permite ao indivíduo, de acordo com seus próprios objetivos para uma situação e tempo específicos, tomar decisões próprias sobre como usar essas idéias e informações. Ao aconselhar, dizemo-lhe o que fazer com a informação, tirando-lhe a liberdade de decidir por si mesmo um plano de ação apropriado.

 7. Concentre a crítica na exploração de alternativas e não na obtenção de respostas ou soluções

Quanto mais nos concentramos em uma variedade de procedimentos e propostas para obtenção de um objetivo específico, é menos provável que aceitamos o nosso problema específico. Às vezes chegamos a inúmeras respostas e soluções quando os problemas correspondentes nem sequer existem. É importante explorar alternativas e não se concentrar em respostas ou soluções que talvez não sejam necessárias.

 8. Concentre a crítica no valor que ela pode ter para quem a receber e não no valor ou satisfação para quem a faz

A crítica deve ser útil a quem a recebe e não a quem a oferece. A ajuda e a crítica devem ser dadas e entendidas como um oferecimento e não como uma imposição.

9. Concentre a crítica na quantidade de informação que a pessoa que a recebe pode usar e não na quantidade que você tem e que gostaria de oferecer

Sobrecarregar uma pessoa com crítica pode reduzir a possibilidade dela usá-la eficientemente. Quando criticamos mais do que a pessoa pode usar podemos estar satisfazendo nossas necessidades e não ajudando-a.



10. Concentre a crítica em tempos e lugares propícios que ajudam a compartilhar a informação pessoal ou particular

Devido ao fato de que receber e usar a crítica desperta possíveis reações emocionais, é muito importante ser sensível quanto à adequação de uma situação. Uma crítica excelente, dada em momento inoportuno, pode trazer mais dano que benefício.

11. Concentre a crítica em descrições e não em juízos

Os aspectos da crítica que se referem ao que, como, quando e onde do que se diz são características observáveis. O porque do que se diz nos leva do observável ao deduzível e nos introduz no campo dos “motivos” ou “intenções”. Provavelmente é apropriado pensar em um porque em termos de objetivos específicos de metas nas quais se deva considerar o tempo, lugar, procedimento, probabilidade de alcançá-lo, etc. Porém, tirar conclusões sobre os motivos de quem faz a crítica pode impedir que a escutemos ou distorcer o que se diz. Em outras palavras, se questiono o porque de alguém me fazer uma crítica, posso simplesmente não escutar o que está me dizendo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Amizade, respeito à diferença e responsabilidade


Os livros de história nos ensinam que quando se instaurou o processo que fundou a Revolução Francesa, no século XVIII, três valores tornaram-se fundamentais como objetivos para uma nova sociedade e um novo homem. A Revolução, considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea, propunha abolir a servidão e os direitos feudais, proclamando os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" , frase do filósofo autoria de Jean-Jacques Rousseau.
Quando olhamos para a nossa atualidade, todavia, especialmente os anos que transcorreram desde o processo revolucionário, é possível observar que os três princípios ou não foram vivenciados de maneira satisfatória ou perderam a sua importância, embora todos nós defendamos que eles ainda são fundamentais.
Faço a seguinte indagação: será que viver livre, equitativa e fraternalmente não é um objetivo grandioso demais e distante da realidade? Como a nossa cultura tem um fundo bastante religioso, tendemos a elaborar projetos ou criar expectativas exageradamente impraticáveis: o reino dos céus é o verdadeiro reino. Ou seja, preferimos acreditar que um outro mundo é possível, mas já sabendo que ele será impossível nesse mundo. E me parece que os três princípios são dessa ordem. Por isso, quero pensar alguma coisa mais chão, mais mundana e mais real que não nos frustre tanto.
Partindo da idéia de que nós, seres humanos, somos finitos e incompletos, talvez caiba pensarmos ou elaborarmos “sonhos” e desejos mais concretos e vivenciáveis. Tenho refletido que a experiência da amizade, do respeito à diferença e da responsabilidade são valores mais perto de nós, que se integram e dependem, em certa medida, das nossas atitudes e escolhas.
Embora eu vá desenvolver melhor essas reflexões em artigos futuros, esses valores nos dão a possibilidade de reconhecer o outro e conviver com ele. No que se refere à amizade, Aristóteles, filósofo grego, a considera uma virtude sumamente necessária à vida, pois na companhia de amigos os homens são mais capazes tanto de agir como de pensar. Nesse caso, o outro não é apenas alguém de quem tiramos proveito ou sentimos prazer em estar com ele, mas fundamentalmente alguém que possibilita vivermos a nossa bondade, a amizade perfeita. E esta é a amizade dos homens bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e o fazem em razão da sua própria natureza e não de forma fugaz e acidental.
A boa convivência com outro, elemento essencial para a construção das relações humanas, precisa também considerar que não somos iguais, mas temos crenças, desejos, valores, vontades, maneira de ser e agir diferentes. Assim, exercer atitudes respeitosas para com o outro é essencial se quisermos viver a nossa humanidade de forma concreta, satisfeita, já neste mundo.
No entanto, isso não quer dizer que podemos fazer tudo, visto que já nao teríamos valores e princípios universais que nos orientem. Se concordarmos que somos nós e o mundo, por meio de nossas relações com o outro, cumpre-nos uma carga maior de responsabilidade para enfrentarmos as exigências do nosso cotidiano, muitas vezes duro e desagradável. Essa é a nossa tarefa num mundo onde muitas das denúncias dos revolucionários franceses ainda persistem, além de outros dramas criados pelo capitalismo. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

DEUS SEGUNDO ESPINOZA


Bento de Espinoza (também Benedito Espinoza; ou Baruch Spinoza)

Pára de ficar rezando e batendo no peito!
O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes  tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.
Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável.
Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.
Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir.
Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim.
Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.
Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão.
Não há nada a perdoar.
Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos.
Não há pecados nem virtudes.
Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste...
Do que mais gostaste?
O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim.
Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem.
Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria!
Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.”

Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com Renè Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A internet e as relações humanas


Está quase no cotidiano de grande parte das pessoas o acesso à internet e, sobretudo, às páginas de relacionamento. Orkut e Facebook são os lugares mais vistos e acessados e onde se acredita que se tem a oportunidade de consolidar contatos e resgatar relações que se teve há muito tempo em nossas vidas. Ainda nos falta estudos e reflexões profundas sobre o impacto e os efeitos que toda essa novidade tem trazido e provocado na existência de muita gente, seja para o bem ou para o mal.
Os noticiários de jornais, TVs, revistas, etc, tem revelado fatos e acontecimentos geradores de problemas nos relacionamentos, desorganizando a vida pessoal e profissional, causando problemas inclusive no trabalho, em que envolvimentos fantasiosos são fontes até de situações violentas. O contato físico, presencial está em fase de abolição, sendo substituído pelo mundo virtual, onde se tem a ilusão de que as carências são ou serão satisfeitas.
É verdade que a tecnologia pode e deve ser usada a nosso favor, todavia, isso pode estar levando a perdermos aquele deleite e  prazer que uma boa conversa ao pé do ouvido ou face a face trazia.
O desenvolvimento urbano, as grandes cidades, as comunicações, as jornadas de trabalhos, a dessubstancialização dos valores e a ausência de perspectivas universais que nos guie parece que tem dificultado a construção de laços sólidos de convivência. Como dizia o filósofo Walter Benjamim, o homem atual volta à noite para sua casa extenuado por uma plêiade de acontecimentos - divertidos ou entediantes, insólitos ou comuns, atrozes ou prazerosos -, mas nem sempre ou quase nunca eles se convertem em algo que tem sentido.
Diante disso, o que nos sobra são relações humanas quase vazias, rápidas e vulneráveis. É claro que a internet não é causa de tudo isso, mas podemos considerá-la como a conseqüência de um mundo que a cada dia se liquefaz. Nesse mundo líquido as  relações se estabelecem com extraordinária fluidez, se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, em constante e frenético movimento.
Como diagnostica o sociólogo Zygmunt Bauman, as pessoas parecem não querer dividir o mesmo espaço, mas estabelecer momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitando o tédio e os conflitos da vida em comum. É como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. Insatisfeitos, mas persistentes, homens e mulheres continuam perseguindo a chance de encontrar a parceria ideal, abrindo novos campos de interação. Daí a popularidade dos pontos de encontros virtuais. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias, e sem prejuízos.
Enfim, o amor e amizade passam a ser vivenciados de uma maneira mais insegura, com dúvidas e com temerária atração de se unir ao outro. Se nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, agora a questão que se coloca é saber ou nos perguntar o que virá no futuro. A pensar!

domingo, 30 de outubro de 2011

Ser professor não é para qualquer um

De todas as profissões que existem, creio que a de professor é a mais desafiadora. Na maioria das profissões que tem contato com pessoas, o profissional dificilmente atende ou se ocupa com mais de trinta indivíduos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar e com várias turmas. Portanto, quando entra nas salas de aula, o professor tem que lidar com dimensões, perspectivas, expectativas e dinâmicas de vida as mais diversas. Ter competência técnico-científica seria, nesse caso, apenas um aspecto das tarefas que precisa ou poderia desempenhar.
Nesse sentido, o professor deveria ter uma compreensão mais ampla do ser humano com o qual trabalha; bem como de si mesmo. Porém, o que vemos é uma banalização e uma desvalorização quase completa da profissão docente.
O Brasil corre o risco de num futuro bem próximo ter uma grave crise na educação por falta de professores. Os cursos que formam docentes estão se esvaziando e os alunos que ainda acreditam estão perdendo as esperanças. Se isso não bastasse, os conteúdos que são ministrados aos futuros professores parecem que não dão conta das exigências que o cotidiano escolar apresenta. Entre elas está a questão do reconhecimento de um conjunto de individualidades que circulam na sala de aula, isto é, cada aluno tem a sua singularidade, a sua própria identidade.
Nos cursos de formação é dada uma ênfase apenas aos conhecimentos específicos que devem ser ministrados nas aulas: História, Geografia, Química, Matemática, Biologia, Língua Portuguesa, etc. O novo professor sai carregado de informações e, muitas vezes com bastante entusiasmo, procura trabalhá-las com os seus alunos, que foram concebidos de maneira abstrata e idealizados. Quando, porém, percebe que há uma distância entre o ideal e o real, o resultado é, geralmente, a frustração, o desencantamento e, para aqueles que podem, o abandono da profissão.
Assim, uma reflexão que talvez caiba fazermos é a respeito do que mudar no processo formativo e na prática pedagógica. Em minha opinião, o professor deve ter conhecimentos sobre ética, pois é um campo filosófico que nos proporciona compreender os valores que adotamos, o sentido dos atos que praticamos e a maneira pela qual tomamos decisões e assumimos responsabilidades em nossa vida.
Quando, numa sala de aula, estamos diante de situações de conflito ou quando defrontamos com dilemas, que exige decisões e escolhas, ter uma formação ética pode favorecer posturas novas, tolerantes e equilibradas em nossas práticas educativas. Mas isso é possível? Não é das tarefas mais fáceis, especialmente pelas razões já apontadas.
Todavia, esse alargamento na formação do professor, que pode incluir conteúdos estéticos, psicológicos, políticos, antropológicos, sociológicos, etc, nos leva a considerar com mais cuidado o significado do outro que, diferente de mim, deve ser respeitado e tratado na minha dignidade e na dele. No caso da escola, o aluno deve saber e reconhecer isso; o professor deve saber e reconhecer também. Como se vê, saídas podem ser arriscadas, basta sabermos se queremos correr riscos ou ficar conformados com o estado lastimável e degradante em que experimentamos na atualidade. São esses os desafios de todos nós!

Professor Alonso Bezerra de Carvalho é formado em Filosofia e Ciências Sociais. Doutor em Educação é docente da Unesp. E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Morrer é Preciso




Nós estamos acostumados a ligar a palavra “morte” apenas à ausência de vida, e isso é um erro.
... ... Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todos os dias.
A morte nada mais é que uma passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da semente. Não existe embrião sem a morte do óvulo e do espermatozóide. Não existe a borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio.
A morte nada mais é que o ponto de partida para o início de algo novo.
A fronteira entre o passado e o futuro.
Se você quer ser um universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente.
Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descompromissado que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas.
Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta, ou o solteiro solto, que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projetos e tempo com mais ninguém.
Quer ter boas amizades? Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos.
Enfim, todo processo de evolução exige que matemos nosso “eu” passado, inferior.
E qual o risco de não sermos assim?
O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo nosso foco, comprometendo nossa produtividade, prejudicando nosso sucesso.
Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser.
Elas querem a nova etapa sem abrir mão da forma como pensam ou como agem.
Acabam se transformando em projetos acabados, híbridos, adultos infantilizados.
Podemos até agir às vezes como meninos, de tal forma a mantermos as virtudes de criança, que também são necessárias: brincadeiras, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância, etc.
Mas, se queremos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes infantis, para passarmos a agir como adultos.
Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mão, cidadão ou cidadão, amigo ou amiga) melhor e evoluído?
Então, o que você precisa é matar em si, ainda hoje, é o “egoísmo”, é o “egocentrismo”, para que nasça o ser que você tanto deseja ser.
Pense nisso e morra. Mas não se esqueça de nascer ainda melhor!!!
Autor: Paulo Angelino)

sábado, 24 de setembro de 2011

É possível uma educação fora da razão?


Desde a tenra idade somos educados para o raciocínio, isto querendo dizer de maneira geral que somos capazes de formular e compreender conceitos, idéias e teorias. A criança quando chega à escola, por exemplo, logo já é levada estimulada a reconhecer e a escrever letras, números, palavras e frases, enfim, a ser alfabetizada. O professor olha para aquele ser indefeso, tenso, curioso e dinâmico e vê nele um espírito dotado de inteligência e, tomado como racional, pode e deve ser explorado e motivado a conhecer.
É no início da modernidade, ali pelos idos dos séculos de XVI, que a escola, o professor e o aluno como conhecemos hoje se instauraram. A razão conquista um lugar de profundo destaque no campo filosófico, educacional e científico. O filósofo francês chamado René Descartes deu uma contribuição fabulosa para esse processo. Ao reconhecer as limitações do conhecimento que se praticara anteriormente, isto é, no período da Idade Média, ele se empenhou em buscar um novo método de investigação, uma nova forma de conhecer para se chegar à verdade e à certeza; um método que tivesse clareza e distinção, um método para unificar todos os conhecimentos humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício plenamente iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas racionais.
Para o pensador francês, a essência da natureza humana era o pensamento, que ele chamava de “cogito”, privilegiado em detrimento da matéria. Assim, a razão passou a ser considerada com todas as forças, tornando-se o guia para o encontro da verdade de maneira exata, clara. Nesse sentido, o mundo das paixões, das emoções, dos sentimentos são instâncias que nos conduziria ao engano, ao erro e, portanto, não podemos confiar nelas, mas renunciá-las. E é essa concepção de verdade, de ciência e de conhecimento que aportou de maneira plena na escola, esta se tornando nada mais do que uma instituição que dá sustentação, visibilidade e exeqüibilidade ao campo racional.
Nessa modernidade que se instaura o mundo perde os seus encantos, os seus segredos, reduzindo-se a algo que pode ser controlado, conhecido e manipulado. Nada escapa. Por isso há a necessidade de um professor que centraliza o saber e de um aluno sobre o qual deve-se depositar os conhecimentos. Aquela inocência infantil é aniquilada e em seu lugar instaura-se a crença no racional, na racionalidade. A razão pode tudo.  Tudo é organizado para que o sujeito pensante, o sujeito da razão, possa agora determinar as coisas.
No entanto, é possível perceber que após alguns séculos, aquilo que foi expulso pelas portas da frente, volta pelas janelas do fundo: as paixões, as emoções, os sentimentos. Ações e condutas humanas nem sempre são ou podem ser racionais. Não dá para ser racional todo o tempo. Nesse aspecto, se quisermos hoje em dia pensar e construirmos uma educação inovadora seria razoável considerar esse outro lado de nós mesmos. O que significa dizer que a razão não pode tudo e que há algo fora dela que é preciso levar em conta. Pensemos nisso!